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        <title>PHILOSOGOGOS - Blog</title>
        <link>http://philosogogos.mozello.com/blog/</link>
        <description>PHILOSOGOGOS - Blog</description>
                    <item>
                <title>UM APENSO DE OUTROS TRILHOS DE HISTÓRIA DA ILHA DE SANTO ANTÃO QUE ACRESCENTAM VALOR AOS EXCURSOS DO MEU FILOSOFAR TELÚRICO (I): Pedras que falam pela idade e são capazes de nos provocar água na boca.</title>
                <link>http://philosogogos.mozello.com/blog/params/post/1043345/o-professor-quando-na-sua-profissao-espalhou-as-sementes-do-conhecimento-re</link>
                <pubDate>Mon, 19 Dec 2016 03:46:00 +0000</pubDate>
                <description>&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&quot;Boas histórias, ques pedras tem dod gente uns
camuquinhas de quel bom, la na terrer e ne Fajã, graças a eterna Didita e Maria
Senhorinha, e sem falar na um Papa de rolon e uns banana de Fongo que nos la na
casa ene dava gosta mut&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;…&quot; &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight:
normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;(face@miga &lt;i&gt;Bety Fortes&lt;/i&gt;) &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;“Papa d mi rolod, inda més se for k bóbra, k lete
d&#039;cabra ê deliciosooo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;!&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;” &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight:
normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;(face@miga &lt;i&gt;Marlene da Graça&lt;/i&gt;) &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;“Mim jam kme cold de pes ke papa de mi rolom el e um
omor se bzot en seb pergunta kes gent mes entig”.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight:
normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;(face@migo &lt;i&gt;Antero Monteiro&lt;/i&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: undefined&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;



&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;C@ros leitores, &lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Começo este artigo citando
em epígrafe parte de comentários de três @migos meus, feitos a volta de um &quot;post&quot; que
publiquei na &quot;face&quot;, onde escrevi algumas &quot;coisas&quot; sobre as minhas memórias e vivências da infância com&amp;nbsp;histórias da &lt;i&gt;pedra d’rala&lt;/i&gt;, um utensílio
doméstico (público e privado) outrora utilizado como ferramenta na&amp;nbsp;moagem do milho em Santo Antão e outras ilhas do arquipélago, cuja remanescência de alguns exemplares ainda existe na minha localidade - Ribeira da Torre. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Com esta primitiva máquina de &quot;pedra sobre pedra&quot; produzia-se a farinha de milho a partir da qual se confeciona a famosa &lt;i&gt;papa d’mi rolom, &lt;/i&gt;um &amp;nbsp;prato típico da culinária tradicional cabo-verdiana, chamado pelos mais velhos da minha comunidade &quot;&lt;i&gt;qentiga d&#039;rotcha ê quê te ne morada&quot;. &lt;/i&gt;Pois, era, o milho, em muitos casos, o pão nosso de cada dia, o único&amp;nbsp;alimento presente em todos os lares, seja no campo ou na cidade. Contudo, houve tempos em que por causa da falta do&amp;nbsp;milho, isto é, durante os períodos mais difíceis marcados pelas secas e fomes cíclicas,&amp;nbsp; os santantonenses &quot;Para comer, descobrem [entre tantas coisas como sola de sapato, tronco de bananeira...] raízes de árvores que esporadicamente aparecem, sustentando-se disso e saciando a sede com o pequeno suco também extraído das raízes&quot; (Fernandes, 1998, p. 30 grifo meu)&lt;i&gt;.&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Para conhecer melhor a génese dos utensílios de pedra que viriam mais tarde evoluir para a nossa famosa &lt;i&gt;pedra d&#039;rala&lt;/i&gt;, temos de nos &quot;ancorar no porto seguro&quot; da história da civilização ocidental e &quot;mergulhar nas águas profundas&quot; do passado da humanidade. E ciente desta condição,&amp;nbsp;tomaria como referencial teórico o historiador Edward McNall Burns (s.d., p. 18) para dizer que a história humana inteira pode ser dividida em dois períodos, a &quot;Idade da Pedra&quot; e a &quot;Idade dos Metais&quot;. A primeira é às vezes denominada &quot;Idade Pré-Literária&quot;, ou seja, o período anterior à invenção da escrita. A segunda coincide com o &quot;período da história&quot; baseada em &quot;registos escritos&quot;. E pelo que atesta o autor supramencionado, &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A Idade Pré-Literária cobre pelo &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;menos 95 por cento da existência humana e não termina senão &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;nas proximidades do ano 3000 a.C. A Idade dos Metais é &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;praticamente sinónima da história das nações civilizadas. A Idade &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;da Pedra subdivide-se em Paleolítico (antiga idade da pedra) e &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Neolítico (nova idade da pedra). Cada uma delas recebe o nome &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;do tipo de armas e utensílios de pedra caracteristicamente &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;fabricados durante o período. Assim, durante a maior parte do &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Paleolítico era comum afeiçoar os instrumentos retirando lascas de &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;uma pederneira ou outra pedra e conservando o núcleo restante, &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;que se usava como &quot;machado manual&quot;. Na fase terminal do &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;período, eram as próprias lascas que se usavam como facas ou &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;pontas de lança, rejeitando-se o núcleo. O Neolítico viu os &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;instrumentos de pedra lascada ceder o passo aos instrumentos &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;feitos de pedra desgastada pelo atrito e polidas. (Burns, s.d., p. 18)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Assim dotado da capacidade de raciocínio, que
o diferenciou desde logo dos primatas,&amp;nbsp;o homem já na &quot;Idade Pré-Literária&quot;, iniciou uma
viagem pela invenção tecnológica que demonstrou a sua habilidade de utilizar os elementos que a Natureza lhe oferecia, dos quais se destaca a pedra, em seu próprio benefício.&amp;nbsp; O uso da pedra&amp;nbsp;que acompanhou a&amp;nbsp;evolução do homem se
traduziu, durante a época paleolítica, na produção de utensílios em pedra
lascada, destinados a cortar, raspar, partir, furar, entre várias outras
funções. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-center&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 638px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/lascadas.jpg?1482189471&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem 1 - Ilustração de um homem primitivo desnudo agachado à beira de um rio segurando em cada mão lascas grandes de pedregulhos, como se estivesse pronto a desgasta-las. Fonte: &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;http://iriscordemelad.blogspot.com/2016_05_01_archive.html&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;
Na verdade, para o&amp;nbsp;homem primitivo eram bons tempos aqueles quando as pedras estavam lascadas porque a invenção da pedra lascada &quot;abriu novos caminhos para a sobrevivência da espécie&quot; (Rodrigues, p. 28). Vejamos o exemplar que segue em baixo: &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 638px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/Olvovai_1.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem 2 - &lt;i&gt;Ferramenta de corte de Olduvai&lt;/i&gt;, utensílio encontrado na
garganta de Olduvai, Tanzânia 1,8-2 Milhões de Anos. Fonte: Neil MacGregor (2013). &lt;i&gt;A História do Mundo em 100 Objetos&lt;/i&gt;. Rio de
Janeiro: Intrínseca. p. 34. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;





&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Segundo MacGregor (2013, p. 34) esta ferramenta em pedra lascada, encontrada na Tanzânia&amp;nbsp;(Leste da África) foi o &quot;começo de tudo&quot; porque é&amp;nbsp;a &quot;origem da caixa de ferramentas&quot;. Mas, esta pedra lascada não é uma ferramenta qualquer porque marca o momento em que nos tornamos distintamente mais
espertos, movidos por um impulso não só de fazer coisas, mas também de imaginar
como “melhorar” as coisas. Aquelas lascas extras no gume da ferramenta de corte
revelam que, desde o início, nós – ao contrário de outros animais – sentimos o
desejo de fazer coisas mais sofisticadas do que o necessário. Objetos
transmitem poderosas mensagens sobre quem os produz, e a ferramenta de corte é
o começo de uma relação entre os seres humanos e as coisas que criaram, o que é
tanto um caso de amor quanto uma dependência. A partir do momento em que nossos
ancestrais começaram a fabricar ferramentas como esta, ficou impossível para as
pessoas sobreviver sem os objetos que produzem; nesse sentido, fabricar coisas
é o que nos torna humanos. As descobertas relacionadas com esta ferramenta na
Tanzânia, tiveram como resultado mais do que simplesmente obrigar os humanos a
recuar no tempo: deixaram claro que todos nós descendemos desses ancestrais
africanos e que cada um de nós é parte de uma gigantesca diáspora africana – &quot;
todos trazemos a África no DNA e todas as nossas culturas começaram ali&quot;, mais concretamente na Tanzânia (Leste da África). &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/oldovai.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem 3 - Mapa de África onde vemos sinalizado&amp;nbsp;, no pormenor ao lado, a garganta Olduvai na Tanzânia (Leste de África).&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Fonte: http://www.historialia.com/detalle/57/homo-habilis-garganta-olduvai-tanzania&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

O arqueólogo David Attenborough citado em MacGregor (2013)&amp;nbsp;assevera que este utensílio talhado em pedra lascada e encontrado na garganta de Olduvai, na Tanzânia, há aproximadamente 1,8-2 Milhões de Anos, &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;... está na base de um processo que se tornou quase obsessivo entre os
seres humanos. É algo criado a partir de uma substância natural com um propósito
específico, e, de certa maneira, quem fez o objeto tinha uma noção de por que
precisava dele. É mais complexo do que o necessário para desempenhar a função
na qual foi usado? Acho que se pode quase dizer que sim. Ele precisava mesmo
tirar uma, duas, três, quatro, cinco lascas de um lado e três do outro? Não
bastariam duas? Acho que sim. Acho que o homem ou a mulher que segurou isto o
fez apenas para um trabalho específico e talvez sentisse alguma satisfação em
saber que aquilo cumpriria sua tarefa com grande eficácia, economia e ordem.
Com o passar do tempo, se poderia dizer que ele passou a fazê-lo de forma
primorosa, mas talvez ainda não. Era o começo de uma jornada. (Attenborough ap. Macgregor, 2013, p. 36)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

O percurso dessa jornada, como já vimos no princípio deste artigo, tem como último estágio o período
Neolítico, também denominado por &quot;nova idade da pedra&quot;. Esta denominação porque os objetos de pedra utilizados como ferramentas passaram a ser feitos pelo método do polimento, mediante o atrito, ao invés da fratura e separação de lascas, como se fazia no estágio anterior. Pensamos que a ferramenta na imagem em baixo é&amp;nbsp; esclarecedora. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Machadinha.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;4 - &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Machadinha de Olduvai&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt; Ferramenta encontrada na garganta de Olduvai, Tanzânia (Leste da África), há 1,2-1,4&amp;nbsp; Milhões de Anos. Fonte: Neil MacGregor (2013). &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;A História do Mundo em 100 Objetos&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;. Rio de Janeiro: Intrínseca. p. 39. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Esta machadinha é bem diferente das ferramentas de corte&amp;nbsp; produzidas a partir das lascas de pedra do Paleolítico, porque não é&amp;nbsp; um objeto&amp;nbsp;simples de produzir. É resultado de experiência, planejamento cuidadoso e habilidade adquirida e refinada durante um longo período. Esta&amp;nbsp; ferramenta de pedra polida é: &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Tão importante para a nossa história quanto a grande destreza manual necessária para &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;fa&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;zer este instrumento de corte é o salto conceptual exigido: a capacidade de imaginar num &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;bruto bloco de pedra a forma que se quer produzir, assim como o escultor de hoje vê a estátua que aguarda dentro do bloco de pedra. &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Este particular pedaço de suprema pedra &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;high-tech &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;[...] &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;veio de uma camada &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;geológica mais recente do que a ferramenta de corte, feita centenas de milhares de anos &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;antes, e há um imenso salto entre aqueles primeiros utensílios de pedra e esta machadinha. É &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;aqui que encontramos as origens reais dos humanos modernos. Nós reconheceríamos alguém igual a nós em quem a fez. (&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;MacGregor, 2013, p. 40)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Esta ferramenta é prova de que o Neolítico viu os instrumentos de pedra lascada ceder o passo aos instrumentos feitos de pedra desgastada pelo atrito e polidas. Sobre os avanços tecnológicos desse estágio assinala-se que: &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A muitos respeitos, a nova idade da pedra foi a era mais importante na história do mundo até então. O nível do progresso material atingiu novas alturas. O homem neolítico exercia maior domínio sobre o meio do que qualquer dos seus predecessores. Tinha menos probabilidades de perecer devido a uma mudança das condições climáticas ou porque viesse a falhar uma parte dos seus recursos alimentares. Essa decisiva vantagem resultou, sobretudo, do desenvolvimento da agricultura. Enquanto todos os homens que viveram anteriormente eram coletores, o homem neolítico era produtor de alimentos. (Burns, S.d., p. 29)&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Ainda, com a descoberta da agricultura também nesse estágio o homem iniciou um novo processo de produção de utensílios, assim como o processo de transformação do seus alimentos. Passou a utilizar mais tipos de pedras, como o sílex e o polimento, como nova técnica de produção. Como essas novas atividades requeriam novos utensílios, surgiram, neste contexto, instrumentos mais capazes e adaptados a novas práticas, como a lâmina para as foices de corte, a enxó de pedra para cultivar a terra e os moinhos manuais para moagem dos cereais.&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Assim, conhece-se, desse tempo a “mó de
rebolo” ou “mó de vaivém”, constituída por duas pedras (mós), uma dormente (pouso)
e outra movente (volante). Como o próprio nome deixa transparecer, o movimento de rebolo e vaivém da movente ou volante sobre o cereal (milho e outros grãos) que se encontrava na mó
dormente ou pouso, transformava-o num novo produto, a farinha, que para ser obtida, ele passou a triturar os grãos com duas pedras lisas, uma maior e fixa; outra menor e móvel, a qual foi-se aperfeiçoando aos poucos. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Estava-se na pré-história da agricultura e era este o processo usado no Egito e&amp;nbsp;o resto do &quot;&lt;a href=&quot;https://pt.wikipedia.org/wiki/Crescente_F%C3%A9rtil&quot; target=&quot;_self&quot;&gt;Crescente Fértil&lt;/a&gt;&quot;&amp;nbsp; (território que se estende das planícies aluviais do Nilo, continuando
pela margem leste do Mediterrâneo, em torno do norte do deserto sírio e através
da Península Arábica e da Mesopotâmia, até o Golfo Pérsico) há muitos milhares de anos.&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-center&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/mo_Egito.jpg?1482119510&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;5 - Estatueta egípcia da dinastia III fazendo a representação de uma mulher nas lides domésticas da moagem de cerais utilizando a mó de rebolo, um exemplar africano arcaizante da &lt;i&gt;pedra d&#039;rala&lt;/i&gt;. Fonte: Morgan (1896). &lt;i&gt;Recherches sur les origines de l&#039;Egipte. &lt;/i&gt;Paris: s/ed. p. 144. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Se é coerente afirmar que a ferramenta de pedra lascada encontrada em Olduvai é o &quot;começo de tudo&quot; e a&amp;nbsp;&quot;origem da caixa de ferramentas&quot; e que, igualmente, a machadinha, também de Olduvai, reflete a &quot;capacidade de imaginação&quot; do homem (Macgregor, 2013), não é mera retórica nossa dizer, citando as palavras do eclético (historiador, filólogo, teólogo, filósofo,
escritor…) francês, Joseph Ernest Renan (1823-1892), que “Um mundo
sem ciência é escravatura, o mundo fazendo girar a mó, submetido à matéria,
equiparando à besta de carga&quot;.&amp;nbsp;&amp;nbsp;Portanto, a invenção da mó de rebolo é o começo de uma nova&amp;nbsp;arte e técnica (ciência) que veio libertar o homem do cansaço desse trabalho árduo e fastidioso de transformação dos grãos...&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 14px; line-height: 1.5;&quot;&gt;Mó, mais concretamente, um moedor
de pedra &amp;nbsp;de origem neolítica, constituído por duas pedras sobrepostas, é denominado “mó de rebolo” ou “mó de vaivém” e vulgo, nestas bandas (ilha de Santo Antão), como já dissemos, &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;font-size: 14px; line-height: 1.5;&quot;&gt;“pedra d’rala”&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 14px; line-height: 1.5;&quot;&gt;. Trata-se de&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 14px; line-height: 1.5;&quot;&gt;um utensílio
doméstico acionado diretamente à mão por mulheres e&amp;nbsp;homens desta ilha na moagem do milho (cru ou torrado) para fazer farinha ou camoca, como se pode ver na foto em baixo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-center&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/papa.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;6 - Uma jovem mulher de Santo Antão (Tarrafal de Monte Trigo) moendo milho na pedra d&#039;rala, onde ao lado vê a bandeja, outro utensílio doméstico tradicional usado nesta ilha durante o&amp;nbsp;ciclo de transformação do milho. Fonte: www.mindelo.info&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Sobre o formato e a história dessa primitiva máquina de pedra em solo cabo-verdiano, escreveu o antropólogo cabo-verdiano João Lopes
Filho (1997) em seu &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Corpo e Pão – o
vestuário e o regime alimentar cabo-verdianos&lt;/i&gt;, o seguinte: &lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;“Consta de uma laje larga e um tanto
côncava, sobre a qual espalham o milho para ser triturado por uma outra padra
de formato ovalóide, num movimento de vaivém sobre a primeira (tanto uma como a
outra terão de ser pedras rijas). Trata-se de um instrumento pré-histórico
destinado a esmigalhar ou moer os grãos e […] é […] muito mais primitivo, de
tipo das mais antigas mós neolíticas, que entre nós se encontra ainda no
espólio arcaizante de alguns castros não romanizados, mas na África Ocidental,
continua em uso em alguns lugares, como testemunha o facto de ela ter sido
encontrada entre os Bochimanes de Angola onde, «para triturar frutos e
sementes, alguns grupos utilizam igualmente uma pedra achatada a servir de mó
de rebolo». Alguns autores sustentam, ainda, que este utensílio teria sido
introduzido em Cabo Verde a partir das Canárias, onde já existia” (pp.
217-218). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-center&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/mo_portugal.png&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;7 - Imagem (Desenho) de duas pedras pré-romanas sobrepostas em forma de mó de rebolo&amp;nbsp;(cavado) existente no Museu Etnológico de Portugal. Esboço feito pelo Desenhador F. Valença.&lt;/span&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Contudo, uma &lt;a href=&quot;http://www.patrimoniocultural.pt/static/data/publicacoes/o_arqueologo_portugues/serie_1/volume_27/55_caracter_primitivo.pdf&quot; target=&quot;_self&quot;&gt;fonte primária acedida online&lt;/a&gt;, nos dá conta que já &quot;os antepassados dos portugueses&amp;nbsp;empregavam pedras&quot; desse tipo ou quase parecidas com a nossa &lt;i&gt;pedra d&#039;rala&lt;/i&gt;, como se pode ver na imagem 7. De acordo como o autor desta fonte, essa ferramenta era utilizada na &quot;moagem de cereais ou outras substâncias que servissem para o fabrico de pães e bolos&quot;. E crendo na autenticidade dessa fonte, então&amp;nbsp;é pouco provável que o costume do uso da
pedra d’rala tenha sido introduzido em Cabo Verde, a partir das ilhas Canárias como deixam transparecer os autores lidos por João Lopes Filho (1997). &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Em Santo antão é muito mais provável que a sua introdução,&amp;nbsp;tenha sido feita
nos primórdios da fixação do homem no espaço desta ilha. Estou falando de homens como os portugueses&amp;nbsp;e afro-negros, mais concretamente, os algarvios e os escravos já &quot;ladinizados&quot; ou mesmo libertos, importados pelos colonizadores a partir de
Santiago para trabalharem na atividade agrícola, a contar, mais concretamente, a partir do século
XVII, um tempo histórico extremamente jovem para a idade muito recuada dessa pedra, um utensílio neolítico (pré-história). &lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-center&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 636px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/IMG_20150312_000646.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;8 - Fotografia&amp;nbsp;feita por mim à Nhá Titina de Sérgio e sua pedra d&#039;rala na Zona de Cruz de Cima, no Alto da Ribeira da Torre -&amp;nbsp;Novembro de 2016&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Quanto às suas localizações no vale da Ribeira da Torre, fiz um pequeno levantamento, tendo contabilizado, só num&amp;nbsp; pequeno périplo às zonas circum-adjacentes ao &lt;i&gt;Top d&#039;Mranda&lt;/i&gt;, a majestosa torre de pedra que é a nossa imagem de marca, como se pode ver pela trajetória tracejado à vermelho, do alto da Penha de França à zona de Ladeirinha, 10 &lt;i&gt;pedras d&#039;rala&lt;/i&gt;: Penha de França (duas); Selada de Ribeirinha de Jorge (três); Varzinha (uma); Cabouco de Polingrina (uma); Cruz de Cima (uma) e&amp;nbsp;Ladeirinha (duas).&amp;nbsp;&amp;nbsp;As confiram na imagem que se segue em baixo.&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/TM_Rebolo-3.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;9 - Imagem do Vale da Ribeira da Torre e sua imponente Top d&#039;Mranda em cuja volta ainda encontramos alguns exemplares inoperacionais da pedra d&#039;rala (exceto a pedra da imagem 6). Fonte: Manuel Nascimento, em http://asemana.sapo.cv/spip.php?article83031 (Adaptado)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Quantas&amp;nbsp;pedras d&#039;rala em tantas outras ribeiras e lombos (zonas rurais) dos três concelhos da nossa a ilha, podemos ainda encontrar? Crê-se que várias! E se tivéssemos que fazer um levantamento e&amp;nbsp;respetivas sinalizações das mesmas, andando a ilha de Santo Antão de lés a lés, iriamos encontra-las aos montes e, de certeza, constatar, &lt;i&gt;in loco, &lt;/i&gt;que algumas delas até agora se operam, ou seja, as pessoas mais antigas ainda conservam o costume do seu uso para moerem &amp;nbsp;&lt;i&gt;prentém&lt;/i&gt; (milho torrado) e produzirem a famosa camoca de milho avermelhado oriundo da Argentina, milho este chamado lá para as bandas de&amp;nbsp;Altomira por &quot;&lt;i&gt;mi d&#039;Jon&quot;&lt;/i&gt; ou em Ponta do Sol por &lt;i&gt;&quot;mi d&#039;Mria Russa&quot;, &lt;/i&gt;mas na minha localidade (Ribeirinha de Jorge) por &quot;&lt;i&gt;mi sénguinha&quot;.&lt;/i&gt; Olhem que este&amp;nbsp;cereal torrado e moído&amp;nbsp; dá &quot;&lt;i&gt;um cmuquinha&quot; &lt;/i&gt;de fazer água na boca!&amp;nbsp;Outrossim, dizem que se administrado como &lt;i&gt;ramed d&#039;terra &lt;/i&gt;contribui para a cura da anemia...&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-center&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 628px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/DSC_1056.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;10 - Foto feito por mim ao Martim de Ti Xiquinha&amp;nbsp;simulando ralar milho na pedra d&#039;rala pertencente à sua falcida mãe, no Lombo da Penha de França, Ribeirinha de Jorge, Ribeira da Torre - Novembro de 2016&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Havia outrora várias protótipos de &lt;i&gt;pedra d&#039;rala&lt;/i&gt; nesta ilha e dizem que os seus usos eram frequentes, por se tratar de uma ilha essencialmente agrícola e onde o milho era a principal cultura e a base da dieta do povo, quer no campo ou na cidade.&amp;nbsp;Em tempos de carestia de comida devido as secas e fomes, o seu uso era mais intenso. O motivo é que as pessoas não tendo
mais nada que comer a não ser milho que dera à praia mercê aos encalhamentos de alguns navios estrangeiros nas nossas encostas, por exemplo Maria Cristina, vulgo
&lt;i&gt;‘Maria Russa’&lt;/i&gt; (encalhado na Ponta do Sol, 1919) e John Schmeltzer encalhado na Praia Formosa, 1947). Abrindo um curto parêntese sobre esses dois fatos históricos locais, para confirmar a veracidade das suas ocorrências, lê-se em&amp;nbsp; Fernandes&amp;nbsp;(1998) o seguinte: &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Aos 17 de Março de 1919, por volta das 11 horas da manhã, foi encalhada na Baixo do Cavalo para uns, Baixinho de Nha Mri Juninha para outros, aproximadamente a um quilómetro de distância donde se situava o antigo farol da Ponta do Sol, o navio cargueiro &quot;Maria Cristina&quot; chamado &#039;Maria Russa&#039; pelos solpontenses, nome que ficou conhecido na história de Santo Antão. [...] «Maria Russa» estava carregado de milho e vinha da Argentina para a Grécia. Poucos dias depois era a &#039;móia&#039;... Durante quase três dezenas de anos, o barco passou a ser «o pão nosso de cada dia» para muito boa gente (ponto de ração para a caldeira dos mais pobres) [...].&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Era nos anos mil novecentos e quarenta e sete, a vinte e cinco de Novembro, quando o navio John Schmeltzer de nacionalidade americana (carregado de mantimentos como milho, sêmeas e sementes de girassol, provenientes da América do Sul) se afundou. A&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;o passar por Cabo Verde,
necessariamente na zona de Barlavento, uma forte bruma dificultou a navegação,
tendo o barco encalhado no sitio da &#039;Canjana&#039; lá para os lados da Praia
Formosa, Ilha de Santo Antão. Foi assim que a procissão de pessoas de todas os
cantos da Ilha ia chegando, noite e dia. Muita gente se safou da fome. Mas
muitas pessoas morreram ao se atirar ao mar sem saber nada, tentando recolher
esses produtos. A informação que se tinha era a de que dos restos mortais, só
vinham à superfície porções de fezes, sinal evidente do seu trágico
desaparecimento. Houve situações em que homens recebiam dos familiares, um
binde de &#039;cuscus,&#039; para conduzirem o corpo ao cemitério. Às vezes, os homens
nem tinham paciência de esperar que o moribundo cerrasse os olhos, arrefecesse
e fosse compensado. Casos houve, em que a pessoa quando atirada para cova
adentro, exclamava: «inda mene merre!». (Fernandes, 1998, pp. 25-31)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

Segundo relatos de quem viveu ou conviveu com pessoas&amp;nbsp;que viveram &amp;nbsp;nos tempos em que havia só milho para comer nesta ilha, muita gente se levantava de cama por volta das três da madrugada para porem na fila e
aguardar, ansiosamente, pela sua vez de fazer moagem do seu milho na &lt;i&gt;pedra d&#039;rala&lt;/i&gt; e produzir farinha para, antes de partirem para as jornadas de trabalho de manhãzinha, poderem confecionar o teu tacho de &lt;i&gt;papa d’mi rolon, &lt;/i&gt;o seu único &lt;i&gt;matar d&#039;injun &lt;/i&gt;disponível&lt;i&gt;. &lt;/i&gt;Contudo, houve tempos em&amp;nbsp;o milho&amp;nbsp;era engolido inchado ou cru, porque &quot;&lt;i&gt;fome n&#039;dem lei&quot;.&lt;/i&gt; &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-center&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 631px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/IMG_20161120_142338-1.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;11 - Foto feito por mim ao Tio Djunga e a pedra d&#039;rala que ainda existe na casa do nosso ascendente paterno (Bisavô e Avô) Manuel Zacarias Monteiro, na zona de Selada de Ribeirinha de Jorge, Ribeira da Torre -&amp;nbsp;Novembro de 2016&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br style=&quot;mso-special-character:line-break&quot;&gt;
&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Hoje, é com muita pena que não vemos a prática do uso da &lt;i&gt;pedra d’rala &lt;/i&gt;no quintal ou terreiro de cada casa nas ribeiras ou povoados rurais da nossa ilha. Quanto ao seu uso pelos mais jovens, entre eles, aqueles que a conhecem, fazem a sua recusa. Outrossim, os jovens que&amp;nbsp;a desconhecem por completo, sequer ousam perguntar sobre a sua história e investigar qual o seu valor cultural, quanto mais agora investir na aprendizagem do seu manuseio junto das pessoas mais idosas!&amp;nbsp;É esse o tipo de &#039;gente&#039; (filhos, sobrinhos, netos...) que estamos preparando para enfrentar o amanhã...&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Contudo, peço&amp;nbsp;minhas sinceras desculpas aqueles jovens que não se incluem&amp;nbsp;nesse role, porque sei que ainda existem alguns deles (as relíquias entre a nova geração) que realmente sabem o gosto do &quot;ralar&quot; e &quot;rolar&quot; com o vaivém nas mãos do destino sobre o pouso&amp;nbsp; das oportunidades do dia-a-dia e que&amp;nbsp;a vida lhes dá, para poderem comer, por dia, um único prato de &lt;i&gt;papa d&#039;mi rolon, &lt;/i&gt;porque as suas famílias passam necessidades e em casa dos pais não têm quase nada que comer. &amp;nbsp; &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-center&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 631px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/milho.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;12 - Exemplares de pequenos sacos de farinha de milho importados do Brasil. Fonte: &amp;nbsp;http://sinhaalimentos.com.br&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Mas p&#039;ra quê toda essa maçada que implica levantar de cama de madrugada, meus caros jovens, para moer&amp;nbsp;na &lt;i&gt;pedra d&#039;rala&lt;/i&gt; e fazer
farinha de milho, se ela já vem todo pronto do exterior, empacotada, em
saquinhos de plástico, rotulados com marca diversa, preço e&amp;nbsp;logo com a&amp;nbsp;Dona IVA incluído. Mas, antes que me esqueço, diria que Dona IVA não! Mas, Senhor IVA porque estamos falando de &quot;O&quot; imposto... coisa que os&amp;nbsp;linguistas discutiriam e esclareceriam melhor do que &quot;certos&quot; políticos da nossa Ágora. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Quanto a compra desses saquinhos de farinha de milho, basta ter dinheiro no bolso para mandar vir qualquer um, ao gosto, necessidade e preferência do freguês, entrando numa 
loja a retalho ao dobrar de um dos becos da Povoação (Cidade da Ribeira Grande) ou em qualquer ribeira.&amp;nbsp;Porém, não havendo farinha de milho moído na &lt;i&gt;pedra d&#039;rala&lt;/i&gt;, desse milho&amp;nbsp;geneticamente modificado, rotulado e em saquinhos de plástico, eu preferiria a &lt;i&gt;Sinhá Fina&lt;/i&gt; porque &lt;i&gt;moda gent entig tava dzê&lt;/i&gt;,&lt;i&gt; &quot;sberba n&#039;dem bonq pê sentá&quot;&lt;/i&gt; e já não tenho &quot;pança&quot; com a capacidade suficiente de suportar a &lt;i&gt;Sinhá Média&lt;/i&gt;, quanto mais a&amp;nbsp;&lt;i&gt;Grossa&lt;/i&gt;?!&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;br&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b&gt;Fontes:&lt;/b&gt; &lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;u&gt;Livros &lt;/u&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;



&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Burns, E. MC. (s.d.). &lt;i&gt;História da Civilização Ocidental - Vol. I&lt;/i&gt;. Rio de Janeiro/Porto Alegre/São Paulo: Globo. S.d. &amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Fernandes, M. P. R. M. (1998). &lt;i&gt;Os Contos
da Paula&lt;/i&gt;. Mindelo: Gráfica do Mindelo.&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Filho, J. L. (1997). &lt;i&gt;O Corpo e o Pão - O
Vestuário e o Regime Alimentar Cabo-verdianos&lt;/i&gt;. Oeiras: Câmara Municipal de
Oeiras.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ki-Zerbo,
J. (2010). &lt;i&gt;História geral da África I: Metodologia e pré-história da África&lt;/i&gt;. Brasília: Unesco.&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Macgregor, N. (2013). &lt;i&gt;A História do Mundo em 100 Objetos&lt;/i&gt;. Rio de Janeiro: Intrínseca. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Rocha, A. (1990). &lt;i&gt;Subsídios para a
História da Ilha de Santo Antão (1462/1983)&lt;/i&gt;. Praia: Imprensa Nacional de Cabo
Verde.&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Rosicler, M. R. (s.d). &lt;i&gt;O Homem na Pré-História&lt;/i&gt;. S.l: Editora Moderna. S.d. &lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;u&gt;Links&lt;/u&gt;&lt;/b&gt;&lt;u&gt; &lt;/u&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;http://asemana.sapo.cv/spip.php?article83031&quot;&gt;&lt;u&gt;http://asemana.sapo.cv/spip.php?article83031&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;http://iriscordemelad.blogspot.com/2016_05_01_archive.html&quot;&gt;&lt;u&gt;http://iriscordemelad.blogspot.com/2016_05_01_archive.html&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;http://sinhaalimentos.com.br/&quot;&gt;&lt;u&gt;http://sinhaalimentos.com.br&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;http://www.historialia.com/detalle/57/homo-habilis-garganta-olduvai-tanzania&quot;&gt;&lt;u&gt;http://www.historialia.com/detalle/57/homo-habilis-garganta-olduvai-tanzania&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;a href=&quot;http://www.patrimoniocultural.pt/static/data/publicacoes/o_arqueologo_portugues/serie_1/volume_27/55_caracter_primitivo.pdf&quot;&gt;&lt;u&gt;http://www.patrimoniocultural.pt/static/data/publicacoes/o_arqueologo_portugues/serie_1/volume_27/55_caracter_primitivo.pdf&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;https://pt.wikipedia.org/wiki/Crescente_F%C3%A9rtil&quot;&gt;&lt;u&gt;https://pt.wikipedia.org/wiki/Crescente_F%C3%A9rtil&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://pt.wikipedia.org/wiki/Idade_da_Pedra&quot;&gt;&lt;u&gt;https://pt.wikipedia.org/wiki/Idade_da_Pedra&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://pt.wikipedia.org/wiki/Neol%C3%ADtico&quot;&gt;&lt;u&gt;https://pt.wikipedia.org/wiki/Neol%C3%ADtico&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;http://www.mindelo.info/&quot;&gt;&lt;u&gt;www.mindelo.info&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;

&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;display: none;&quot;&gt;Na minha zona, por exemplo, antigamente, haviam várias pedras do tipo e o
seu uso era frequente. Eram usadas para triturar prentém do qual se fazia a
famosa camoca de milho, &quot;mi rolon&quot; (farinha de milho não muito fina)
para fazer &quot;papa k&#039;bobra&quot; e outras COMESTÍVEIS à base do milho,
&quot;o pão nosso de cada dia&quot;, antigamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;display: none;&quot;&gt;Hoje não existe uma pedra dessas, naqueles sítios onde existiam
antigamente, para poder servir de memória e assim contar a história aos que não
sabem. Bons tempos, mas infelizmente... &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;br&gt;&lt;/div&gt;&amp;nbsp;&lt;span style=&quot;display: none;&quot;&gt; não existe uma pedra dessas, naqueles sítios onde existiam antigamente, para poder servir de memória e assim contar a história aos que não sabem. Bons tempos, mas infelizmente... &lt;/span&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;display: none;&quot;&gt;Na minha zona, por exemplo, antigamente, haviam várias pedras do tipo e o seu uso era frequente. Eram usadas para triturar prentém do qual se fazia a famosa camoca de milho, &quot;mi rolon&quot; (farinha de milho não muito fina) para fazer &quot;papa k&#039;bobra&quot; e outras COMESTÍVEIS à base do milho, &quot;o pão nosso de cada dia&quot;, antigamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;display: none;&quot;&gt;Hoje não existe uma pedra dessas, naqueles sítios onde existiam antigamente, para poder servir de memóri&lt;/span&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;br&gt;</description>
            </item>
                    <item>
                <title>EXCURSOS DO MEU FILOSOFAR TELÚRICO (I):  Comida e filosofia como degustação de três pratos típicos, à base do milho, na culinária tradicional cabo-verdiana (cachupa, papa, camoca).</title>
                <link>http://philosogogos.mozello.com/blog/params/post/1009651/</link>
                <pubDate>Wed, 09 Nov 2016 00:57:00 +0000</pubDate>
                <description>&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;“… a Cachupa (sopa de milho) não é mais
usada por esses vagabundos, o milho come-se cru, já não há paciência para o
cozinhar, o que provoca uma dilatação do estômago, devido à fermentação.” &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;(Luís Romano, &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Famintos&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;, 1983, p. 23)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;“Antónia de Laura, de pau de pilão na
mão, de manhã cedo e à tardinha, batia, batia, preparando xerém, papas, fongos,
brinholas, cuscuz torrado […] De balaio de tentém a apurar a farinha…” &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;(Teobaldo Virgínio, &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;O Meu Tio Jonas&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;, 1993, p. 51)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;“– Que ninguém nos venha perturbar inadvertidamente,
pretendendo que ninguém tem desejo […] de comida que não seja de qualidade. Porque,
na verdade, toda a gente tem desejo do que é bom”. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;(Platão, &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;A República&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;, 438a)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-right&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Senhores e
senhoras, com as três citações em epígrafe, peço-vos licença para fazer algumas
divagações filosóficas com os pés bem no chão e a cabeça fito na comida, pão
nosso de cada dia. Vou&amp;nbsp;filosofar um pouco sobre os tramas do mundo do comum
dos mortais, “mundo sensível”, como&amp;nbsp;o denominou Platão. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Começo os meus excursos dizendo
que, num &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;plemanhã log cidin&lt;/i&gt;, acordei-me
com o estômago descabelado. Pensando na comida, veio, instintivamente, a ideia
de preparar uma cachupa &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;meme&lt;/i&gt; (cachupa
&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;c’se&lt;/i&gt;, sem ‘pão’) para o almoço, e com
ela poder ‘tapar’ o enorme buraco que tinha aberto no estômago. De onde me veio essa &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;lebzia&lt;/i&gt; meu Deus! Estou com “bicho-carpinteiro”?
Será?!&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Subitamente, perdi a fome,
assim como, a vontade de comer cachupa &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;c’se&lt;/i&gt;.
E, em tom baixinho, murmurando, disse com os meus botões: ah qual história, almoçarei
papa&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt; q’bobra&lt;/i&gt;! &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Jantarei camoca &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;d’pedra d’rala&lt;/i&gt; e pera desafogar a goela
e desempedrar o estômago, nada melhor do que um &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;chá
d’cana pzód ne plon&lt;/i&gt;. Em todo o caso, hoje é Domingo! Então, p’ra quê &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;infrontá&lt;/i&gt; por causa d’comida? &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Uma hora e meia depois,
tive uma intuição&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt; &lt;/i&gt;e, ante ao impulso incontrolável
de pegar em lápis e papel, meus fiéis instrumentos no trabalho de “história e memória”,
segurei, primeiro, esse&amp;nbsp;modesto e dócil carvão, a seguir, uma folha
reciclável de teste sumativo apanhado entre o montão de papeis que costumo
guardar em casa, e, assim, comecei a escrevinhar algumas ideias que me foram, através
de um &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;insight&lt;/i&gt;, aparecendo, mercê, Luís
Romano, Teobaldo Virgínio e Platão, todos, meus escudeiros, citados em epígrafe. Seduzido pelos três,
movido pela vontade de saber e pelo meu recente êxtase pela escrita sobre coisas da
terra, aventurei-me, numa digressão filosófica sobre o assunto comida, um tema inédito no lado de cá. Mas, digressão filosófica sobre comida? Filosofia e comida? Como
assim?!&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Sim, comida e filosofia! É
isso que leram! Mas atenção! Comida e filosofia só depois de “barriga cheia”, porque
como se diz&amp;nbsp;aqui na ilha “&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;sóc bezi n’de pô impê&lt;/i&gt;”!
E sendo verdade, então, vamos encher o bucho primeiro, porque o almoço já está
pronto e sobre a mesa. E já sabem, &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;ê papa
q’bobra&lt;/i&gt;! Convido a todos a gastarem sua parte &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;dess&lt;/i&gt; &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;pôq ’nom mi chega&lt;/i&gt;…&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;De barriga cheia, lancei-me,
de seguida, na projeção do meu empreendimento. Ao começar, senti, como é óbvio,
necessidade de uma base filosófica por onde devia colocar as primeiras pedras
do meu &quot;filosofar telúrico&quot;. Repito, meu filosofar telúrico! Essa base se deve ao fato de que nenhum pensamento filosófico,
por mais original que seja, “cai do céu”, digamos que&amp;nbsp;não é um &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;fiat lux ex nihilo&lt;/i&gt;. Aprendi isso com os
meus mestres, aos quais deve muito, parte das minhas habilidades e competências
desenvolvidas na área de investigação filosófica. E com base nesse pressuposto,
diria que todo o esforço empregue no ato do filosofar tem de estar ligado a algum
antecedente. Afinal de contas, a historicidade é caraterístico do saber filosófico.
&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A priori, com esse
desiderato, comecei a revolver entre os meus arquivos digitais acedidos vi@ net,
possíveis referências que, eventualmente, podiam me ajudar no desenvolvimento desse
tema. Eis que me surge, depois de alguma procura, e quando menos esperava, uma obra
da autoria de Angelina Nascimento (2007), com o título &lt;i&gt;Comida: Prazeres, Gozos e Transgressões&lt;/i&gt;&lt;a name=&quot;_ednref1&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn1&quot; href=&quot;file:///I:/Arquivo/Backup_Vuca/Festa_d&#039;Miron/COMIDA%20E%20FILOSOFIA.docx#_edn1&quot;&gt;&lt;u&gt;[i]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;.
Estou falando de uma referênci@ (e-book) que tinha guard@do num dispositivo
de armazen@mento de d@dos, em uma p@sta com o nome &lt;a&gt;v@rios.philos&lt;/a&gt;
e o ficheiro Antrop@sofia&lt;a name=&quot;_ednref2&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn2&quot; href=&quot;file:///I:/Arquivo/Backup_Vuca/Festa_d&#039;Miron/COMIDA%20E%20FILOSOFIA.docx#_edn2&quot;&gt;&lt;u&gt;[ii]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Comecei a revoltear esse livro
e, mais ou menos, em meio do caminho, parei num tópico com a denominação «Comida
e Filosofa». Assim sendo, disse com os meus botões: caso resolvido, acertei em cheio… eureka!!&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Foi bastante rápida a
leitura desse tópico. O seu esboço, feito em menos de uma página. Nela, deparei-me com
uma ligeira citação a partir de um empréstimo feito em um filósofo francês da
atualidade, um ‘cinquentão’, de nome Michel Onfrey&lt;a name=&quot;_ednref3&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:&amp;#10;edn3&quot; href=&quot;file:///I:/Arquivo/Backup_Vuca/Festa_d&#039;Miron/COMIDA%20E%20FILOSOFIA.docx#_edn3&quot;&gt;&lt;u&gt;[iii]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;. Segue, em baixo, o seu registo:
&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Quando um filósofo fala de música ou pintura, continua
sendo respeitado. Mas eu escrevo sobre comida e vinhos, que estão ligados ao
olfato e ao paladar, sentidos considerados menos nobres pela nossa cultura.
Luto para que a filosofia passe a encarar o corpo por inteiro”. (Nascimento, 2007,
p. 108)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;No filósofo Michel Onfrey
reside&amp;nbsp;&lt;i&gt;la&lt;/i&gt; &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;maître en quete&lt;/i&gt; desse&amp;nbsp;tema proposto em meu projeto &quot;excursos do meu filosofar telúrico&quot;. Como diz ele é preciso “lutar para
que a filosofia passe a encarar o corpo por inteiro”. Mas, é bom que se diga que
isto só é possível se, e só se, aderir às estratégias da “reforma” e “pluridimensionalidade”
do pensamento (Morin, 2006). A meu ver, um pensamento que não separa, mas une.
Une os diferentes saberes, sem pôr a tónica nos seus valores, resultados práticos
e direções. Une o sensível com o inteligível, em vez de os dividir e distinguir, como fez
Platão no seu tempo. Portanto, mercê Onfrey e Morin, é possível relacionar
comida e filosofia. Outrossim, comida e outros saberes auxiliares à filosofia,
tais como: arte, ciência (ciências sociais e humanas), política, religião, etc.
&amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Na análise das relações entre
comida e arte, é possível cruzar a culinária tradicional cabo-verdiana à base
do milho com certas formas de expressão de arte, exemplo, literatura e pintura.
Só a título ilustrativo, no campo da produção literária, encontramos um
escólio sobre&amp;nbsp;cachupa redigido por Baltazar Lopes, quem teve a coragem de beliscar nesse tema, através de um artigo intitulado &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;“A
Cachupa Nossa Quotidiana”&lt;/i&gt;, texto redigido em Fevereiro de 1983, e publicado
no primeiro número da revista &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Ponto &amp;amp;
Vírgula&lt;/i&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Ainda no campo da literatura
de ficção podemos destacar obras de vulto como &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;“Os Famintos”&lt;/i&gt; de Luís Romano (1983), um escritor já falecido, ilustre
filho de Santo Antão, cuja obra é, a meu ver, uma ode (repito, UMA ODE!) aos
tempos dramáticos de seca cíclica e prolongada em Cabo Verde e que foram
responsáveis pela dizimação de boa parte da população da ilha de Santo Antão e
outras ilhas irmãs, em tempos idos, bem visíveis no terreno através da carestia
de comida para alimentar a bocas eslazeiradas destas ilhas. Como diz Romano
(1983) naquela época qualquer camarada (sobre)vivente, “esperando a morte do
moribundo, era capaz de o mergulhar dedos na goela não para lhe evitar a
asfixia, mas para lhe retirar o bocado entalado na garganta e engoli-lo num
fechar de olhos” (p. 23). &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 638px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/Cabo_Verde_Ilha_Sal_FDelfimSantosAspectodecomograndeparteda_populacaovivianaIlhadeSantoAntao_1943.jpg&quot;&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;(Fotografia da Ilha de Santo Antão em tempos de fome, década de 40. Um aspeto de como grande parte da população vivia no
interior da ilha, em 1940 e depois em 1942 e anos seguintes&amp;nbsp;a seca
prolongada foi responsável&amp;nbsp;por uma das maiores catástrofes demográficas da
história de Cabo Verde.&amp;nbsp;
Imagem acedida online em: &lt;/span&gt;&lt;a href=&quot;https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2012/03/guine-6374-p9675-meu-pai-meu-velho-meu.html&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2012/03/guine-6374-p9675-meu-pai-meu-velho-meu.html&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Igualmente, no capítulo
da arte em sua relação com a culinária destacam-se, no campo da pintura, algumas
telas de Kiki Lima que, em meu entender, com os seus “ligeiros traços e poli cromatismos”
de uma pintura “mimética” e &quot;expressiva&quot; da cultura cabo-verdiana (arte como imitação e expressão), retrata mulheres no pilão, a
ventilar milho, fazendo cachupa na lenha e atiçando o lume no fogão de três
pedras suportando o cadeirão, todas no seu esforço de representação da parte
mais saborosa&amp;nbsp;do ciclo de transformação do milho: a preparação e confeção da cachupa, nossa quotidiana...&amp;nbsp; &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo2-2.JPG?1478655196&quot;&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Com Kiki Lima, podemos
identificar alguns motes de estudo sobre a relações arte e comida (pintura e cachupa).
Nesse pintor existem muitos aspetos que podem ser explorados a esse respeito. Diria
eu, aspetos que dariam para desenvolver trabalhos e mais trabalhos de
investigação. Então, para os filósofos da arte, que tal a sugestão de uma
monografia sob o título &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Comida e Arte em Kiki Lima: um apontamento estético sobre pintura e cachupa, nossa quotidiana&lt;/i&gt;? &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo3-1.JPG&quot;&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Hoje, quem não esta acompanhando
continuamente as atualizações do saber filosófico, tampouco se “põe a par” dos
reajustes que nele se vai fazendo, por causa das necessidades, invenções, exigências
e desafios culturais dos novos tempos, pode achar um absurdo virmos à ribalta propor
divagações a volta do tema comida e filosofia. Até, os mais incautos, podem
dizer que é trote, já se chegou ao cúmulo da loucura e do ridículo por causa da
filosofia, que filosofia nos arribou à cabeça, ou, quem sabe, dizerem com as suas próprias bocas, pensando com a cabeça dos outros, que estamos passando
por uma fase de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;lebzia&lt;/i&gt; (falta de
comida, fome!). &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Vendo bem as coisas nesta última direção, até digo que é falta de comida sim! Mas, não é falta de comida no “bucho”. É na cabeça, isto é, uma espécie de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;lebzia&lt;/i&gt; de
conhecimento, o que já é muito bom! E para saciar essa fome, de momento, nada melhor que divagar, filosofar sobre comida. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Se bem que o nosso pai, avô, bisavô, tetravô… Aristóteles já havia dito que “O filósofo é aquele
que possui a totalidade do saber na medida do possível”. E para conseguir almejar esse
saber total, geral, há que filosofar sobre tudo. Contudo, a expressão “tudo” que aqui se emprega pode estar armadilhado. Filosofar sobre tudo, quer dizer todas as coisas, mas não significa qualquer coisa! E mesmo que seja filosofar sobre qualquer coisa, essa coisa
qualquer tem de nos interessar e interessar a todos. Então, comida não&amp;nbsp;interessa a todos? Quem
não come? Quem não sente fome? Quem não degusta o que é bom de comer? &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Corroborando o argumento
de Aristóteles, citaria outro filósofo, Buno Giuliani (2002) para dizer que filosofar
é “procurar os princípios da natureza visível e invisível, é interrogar-se
sobre a natureza da ‘substância’ […] de que são feitas todas as coisas
materiais ou espirituais, a partir da experiência humana” (p. 125).&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Baseando em Giuliani (200), afirmo que com essas divagações procura-se “os
princípios da natureza visível”, interrogando
sobre a “natureza da substância” de que são feitas algumas “coisas materiais” no campo da
culinária tradicional cabo-verdiana. Culinária, um &quot;saber-fazer&quot; edificado a partir da experiência
sensorial, em todos&amp;nbsp;e com todos os sentidos, isto é, graças às sensações e aos órgãos sensoriais. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Ainda &quot;atiço o lume&quot; dizendo que, com estas divagações, estou filosofando “espigando milho” em solo cabo-verdiano,&amp;nbsp;na nossa terra! Não é uma &quot;pseudo-mania&quot; minha, mas uma intuição que me permite, a partir de algumas experiências
sensoriais vivenciadas como humano que sou, tecer relações entre o que se come e o que se
pensa, numa tentativa de desenvolver uma atitude filosófica inovadora,&amp;nbsp;isto é,&amp;nbsp;um “filosofar como
degustação”, passe as expressões do nosso já citado Onfrey. E isto implica erigir
uma filosofia a partir do paladar conjugado com o olfato, a visão e todos os outros sentidos juntos, em
concorrência com a razão, fonte do &quot;filosofar como indagação&quot;. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Já se referiu que o foco central dessas divagações filosóficas sobre a comida,&amp;nbsp;está em três pratos típicos da culinária tradicional cabo-verdiana confecionados à base do milho, concretamente,
a cachupa, a papa e a camoca, comidas boas mencionadas no
início do texto e que fazem parte do complexo da cozinha nacional, consolidado, há muito tempo, desde a era colonial, como&amp;nbsp;afirmam os estudiosos&amp;nbsp;da&amp;nbsp;nossa história. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Passando agora, sem mais delongas, à
“degustação” do almoço que, por perda de apetite e má vontade, não quis
confecionar nesse dia, começo por dizer, à parte a história, que a cachupa é, sem
dúvida, um dos mais caraterísticos pratos da culinária tradicional cabo-verdiana, se não, o alimento
básico de toda a população de Cabo Verde e, por isso, reflete, praticamente, a
paisagem, a riqueza e a cultura do nosso povo. Entre os vários preparados do milho,
ela erigiu-se como soberana e incontestada nos gostos dos cabo-verdianos (os de cá
 e os lá, os dentro ou fora). &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Existem três maneiras
diferentes de a confecionar: cachupa rica, cachupa pobre ou de “agua e sal” e
cachupa com peixe. Grosso modo, na cachupa “entram como ingredientes milho
cochido (retirado o farelo), feijão, mandioca, batata vulgar e doce,
hortaliças, chouriço, carnes variadas, abóbora, inhame, variedade de elementos
que nas classes mais pobres se vêem reduzidos, muitas vezes, apenas a milho
feijão, água e sal…” (Filho 1997, p. 198)&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo1-3.JPG?1478655264&quot;&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Para degustar melhor&amp;nbsp;&amp;nbsp;a&amp;nbsp; cachupa diria, suportado em&amp;nbsp;Agostinho Rocha, que em Santo Antão, este prato é &quot;predilecto, faz-se desfarelando o milho no pilão de cochir ou &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;batchir&lt;/i&gt; o milho, significando cochir,
bater no coche ou no pilão de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;batchir&lt;/i&gt;,
bater, importado do &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;batcher&lt;/i&gt; de certos
falares brasileiros” (p. 55).&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Batchido o milho,
em seguida era-lhe retirado o farelo no balaio de &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;tem-tem&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt; e levado a cozer na caldeira de fazer cachupa.
Adicionava-se-lhe ervilha, feijão pedra ou feijão pavão, corruptela de fava, e
depois de secar duas ou três águas, deitava-se-lhe o pão de caldeira, constituído
por mandioca, inhame, banana verde, abóbora, batata doce ou batata inglesa,
mas, antes de levar o pão já tinha levado carne, toucinho, peixe ou galinha,
couve, agriões ou mostarda em folhas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;No fim era
temperado com pimenta, cravo, malagueta, tudo pilado no pratinho de pisar
tempero que era uma escudela de figueira, deitava-se o sal com uma colher para
ver se estava no ponto ou se este tinha salgado a comida. Já se podia tirar o
rico caldo de cachupa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Às vezes quando
havia alguém com vontade de comer, antes de jantar dava-lhe cachupa
‘sepulcada’, isto é, salpicada. A cachupa era levada à mesa em terrinas,
travessas, pratos de folha ou pratos de figueira, conforme a categoria das
pessoas, sendo o ‘pão’ e a carne servidos noutros pratos. Deixava-se uma parte
de cachupa ou &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;micochido&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt; para o
‘pão’ de café do dia seguinte, ou seja, para o pequeno almoço, aí as seis ou
sete horas de manhã. Depois de guisada era servida com peixe frito ou carne assada,
ovos cozidos, quentes, ou escalfados, ovos de tartaruga, chouriço, linguiça,
fruta, morcela, paio ou peixe assado nas brasas, batata doce assada, mandioca
assada na brasa ou feita como a batata ou também podia ser cozida e seguia-se
para trabalho até a hora do almoço. […]&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Quando a cachupa
não trazia pão ou ingredientes, diziam que comiam a cachupa ‘merme’ e que era
só cachupa «c’se». (Rocha, 1990, p. 55-56)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;De facto, verifica-se que
a culinária cabo-verdiana é feita de engenho e a partir, principalmente, do
milho,&amp;nbsp;reafirmo, o pão &quot;nosso de cada dia”, em sua relação com o pilão e outras máquinas arcaicas de &quot;pedra e pau&quot;. Excetuando
os tempos de falta de milho em Cabo Verde, desse alimento não se comia&amp;nbsp;só o farelo, o qual, em tempos de fartura, era&amp;nbsp;administrado como ração para “alimárias” (porcos,
cabras, galinhas, etc.). &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Sobre o uso deste utensílio
doméstico&amp;nbsp;e sua importância no ciclo de transformação do milho, escreve Teobaldo Virgínio
(1996) em seu &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Cabo Verde – Parágrafos do meu Afecto: &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;“É o pilão um dos ecos mais
profundos da sociedade caboverdiana de sempre” (p. 63). Atesta Virgínio que o pilão, &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Terá surgido com o cultivo do milho
nos recuados tempos do povoamento, da reminescência de experiências anteriores,
ou já transportados nos barcos dos mercadores da Costa de África e do Brasil. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;O pilão é toda uma cultura. Na casa
do pobre, na do remediado, na do rico. Do tronco de figueira brava, em
princípio, e mais tarde do da mangueira, quando a figueira já morria, é
instrmento que não r&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;equer tratos
de arte não obstante um outro mais apurado pelas mãos de artistas com gosto. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Com um abertura em funil num dos
extremos do tronco, aí de metro e pouco, uma espécie de colar recortado a vinte
centímetros da base, mais dois paus de laranjeira (os martelos) temos o
conjunto dessa máquina primitiva ainda presente nas nossas ilhas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;O pilão assim visto não sugere muita
coisa. Mas quem de manhãzinha o ouvisse em actividade, dar-se-ia conta de um
engenho com coração, alma e cor. Aqui há tudo: flores, madrigais, contraditas,
desafios, amores, cuscus, xerém, cahupa, fongos, papas, brinholas num quadro
crioulo que nenhuma outra criação pode dar. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Há pilões de todas as dimensões: o
pilãozinho de pilar café, o de moer sal, outro mais pequenino de esmagar
malagueta, o alho, o cravo e ainda outro mais acabado da facturação do cancan,
tratado do pó de tabaco com o cheirinho de várias essências.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Mas o pilão, o pilãozinho, é o rei da
festa Aquele que mais chora quando a nuvem enxuga os olhos. Tinha que ser
assim. Um povo de vida centrada na cintura desse velho-pau-amigo como lhe daria
vida sem milho, sem emoção das águas de encharcar&amp;nbsp;potes, meladores, canaviais,
ladeiras da flor do milho?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Pilão da melhor cachupa que comemos
na infância feitas pelos presos do tempo de Nhô Antoninho Leite, carcereiro, na
Ponta do Sol. Aqui eram quatro a sei homens a pilar o milho. Qualquer coisa como
o ritmo do batuque ou tambores de S. João.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Musculosos presos no trato do seu
pão. Cuchiam, esfarelavam, cuzinhavam, temperavam o melhor prato regional que o
delegado de Portugal, por dever de ofício e prazer, ia experimentar todas as
tardinhas. À esquerda a horta dos legumes que engordavam o prato.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Cadeia de Nhô António Leite, famosa
cadeia do pilão, lugar de visitas e cavaco, dos porcos desmesuradamente gordos
do farelo de quartas de milho. E ficava no apetite o gostinho a friginato que
viria depois. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Cadeia de Nhô Antoninho Leite, de
piladores de pequenos azares (fora o milho), os presos que não passavam do
quotidiano do pilão e da cachupa a tempero também do ilhéu e da albacora do mar
da Ponta do Sol. […]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Pilão, velho amigo da terra sem
chuva! (Virgínio, 1996, pp. 63-64)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Ainda, com esta “primitiva máquina”, o pilão, se pode reduzir o milho a partículas&amp;nbsp;menores que são transformadas em farinha grossa, média ou fina. Contudo, esta farinha, pode ser obtida com outras &quot;máquinas primitivas&quot; feitas de pedra. Por exemplo, o 
moedor de mão, isto é, a famosa “pedra de rala”&amp;nbsp; da minha meninice na zona onde nasci e que me fez homem, sito num regato onde íamos apoquentar as menininhas as espiando &lt;i&gt;perboch &lt;/i&gt;aquelas que não traziam cuecas.&amp;nbsp;A «pedra d&#039;rala»,&amp;nbsp;também chamada &quot;mó de rebolo&quot; ou &quot;vaivém&quot; é, assim como o pilão (de pedra e pau), uma &quot;primitiva máquina&quot;.&amp;nbsp;E lá já ia me esquecendo da &quot;mó volante&quot;, outro utensílio com a mesma função, também feito de pedra!&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Com a farinha de milho se fazia papa. Outrora adicionava-se abobora à essa boa comida, sendo
servida&amp;nbsp;ao almoço, acompanhada, sobretudo, com leite de cabra fresco. Costumava-se guardá-la
de um dia para o outro e servi-la&amp;nbsp;ao pequeno almoço em fatias ou frita (Filho,
1997, p. 201). Com a boa papa &lt;i&gt;q&#039;bobra&lt;/i&gt; tive&amp;nbsp;excelente&amp;nbsp;almoço e tapei o enorme buraco que tinha aberto no estômago! Valeu a pena, pá!!&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo4-1.JPG&quot;&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Agora o meu jantar! Estou falando da camoca, um prato que se come, ainda hoje, com leite e açúcar, café, chá
e, também, em forma bolinhos, cujo nome agora passou-me. Ajudem-me a trazê-lo dos confins da memória.&amp;nbsp; Por favor, socoooorro!&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A camoca é feita a
partir dos grãos de milho torrado (prentém, como se chama qui em Santo Antão) e
esmagados no pilão, na mó ou no rebolo (pedra d’rala) até se transformar numa
farinha bem fina que é depurada no balaio de tem-tem, geralmente por mulheres como&amp;nbsp;aquela tal &quot;Antónia
de Laura… De balaio de tentém a apurar a farinha…” (Virgínio, 1993). &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo5-1.JPG&quot;&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Na verdade, tudo o que é&amp;nbsp;bom, toda gente tem vontade de o comer. Então, que ninguém nos venha perturbar, inadvertidamente, pretendendo&amp;nbsp; dizer que não têm desejo de comer cachupa, papa ou camoca porque não são comida&amp;nbsp; boa, isto é, prato de má qualidade. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Antes de terminar a degustação filosófica dos três partos da culinária típica cabo-verdiana à base do milho, considera-se que, aos lhos do
nosso povo, cachupa,
papa e camoca são nada mais que três “pratos desconstruídos” que protegem o “espírito
do milho”, empregam e preservam ou mesmo reforçam a intensidade do
sabor desse alimento. Milho é&amp;nbsp;a substância,&amp;nbsp;um 
produto da terra, base&amp;nbsp;dos principais pratos tradicionais do nosso complexo culinário, que apresentam uma combinação de textura completamente
transformada e diferenciada. Digamos, &amp;nbsp;pratos que são milho que deixou de ser milho para passar a ser cachupa, papa, camoca... cada um com a sua textura, sabor próprio,
tempo de preparação (confeção). Ao fim ao cabo é, em simultâneo, milho&amp;nbsp;vário e singular! Milho &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;sepulcado&lt;/i&gt; (salpicado), bem cozido, torrado…
assado, é milho diverso, múltiplo! Cru, é milho uno, único, altivo e soberano. Milho,
sempre milho, e milho, e milho, e milho... igual a si próprio. Nas nossas cozinhas, nos nossos pratos, no nosso estômago. Mas, antes passado no pilão, na pedra d&#039;rala ou na mó. Assim, termino minhas divagações com uma frase de oiro, citando um ancião com o qual aprendi muito, sobre milho, na infância, em tempos de sementeira em pó: &lt;i&gt;&quot;Óh muêr, mi ê quê govérr d&#039;um casa&quot;!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight:&amp;#10;normal&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight:&amp;#10;normal&quot;&gt;Bibliografia
e Referências &lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;a name=&quot;OLE_LINK1&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #8a7f7f&quot;&gt;Filho, J. L. (1997). &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;color: #8a7f7f&quot;&gt;O Corpo e o Pão - O Vestuário e o
Regime Alimentar Cabo-verdianos.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #8a7f7f&quot;&gt; Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras.&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Giuliani,
B. (2002). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;O Amor da Sabedoria –
Iniciação à Filosofia&lt;/i&gt;. Lisboa: Instituto Piaget.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Lima, K. (2003). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Kiki
Lima&lt;/i&gt;. Lisboa: Caminho. pp. 25-34.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Lopes, B. (1983). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;A Cachupa Nossa Quotidiana&lt;/i&gt;. Ponto &amp;amp;
Vírgula, 1. pp. 3-6.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Morin,
E. (2003). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;A cabeça bem-feita: repensar a
reforma, reformar o pensamento&lt;/i&gt;. Rio de Janeiro: Bertrand.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Nascimento,
A. B. (2007). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Comida: Prazeres, Gozos e
Transgressões&lt;/i&gt;. Salvador: &lt;span style=&quot;color: undefined&quot;&gt;EDUFBA.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Platão. (2007). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;A República&lt;/i&gt;. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Rocha, A. (1990). &lt;i&gt;Subsídios para a
História da Ilha de Santo Antão (1462/1983).&lt;/i&gt; Praia: Imprensa Nacional de
Cabo Verde.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Romano, L. (1983). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Famintos&lt;/i&gt;. Lisboa: Ulmeiro. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Virgínio, T. (1993). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;O Meu Tio Jonas&lt;/i&gt;. Boston: Novela
Caboverdiana. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Virgínio, T. (1996). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Cabo Verde – Parágrafos do meu Afecto. &lt;/i&gt;Boston:
Ruben Melo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;b&gt;Notas de fim&lt;/b&gt; &lt;/p&gt;

&lt;div style=&quot;mso-element:endnote-list&quot;&gt;&lt;br clear=&quot;all&quot;&gt;

&lt;hr width=&quot;33%&quot; size=&quot;1&quot; align=&quot;left&quot;&gt;



&lt;div id=&quot;edn1&quot; style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;p&gt;&lt;a name=&quot;_edn1&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn1&quot; href=&quot;file:///I:/Arquivo/Backup_Vuca/Festa_d&#039;Miron/COMIDA%20E%20FILOSOFIA.docx#_ednref1&quot;&gt;&lt;u&gt;[i]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt; Eis o link de acesso o livro: &lt;a href=&quot;https://www.passeidireto.com/arquivo/5203744/comida--prazeres-gozos-e-transgressoes&quot;&gt;&lt;u&gt;https://www.passeidireto.com/arquivo/5203744/comida--prazeres-gozos-e-transgressoes&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;/div&gt;

&lt;div id=&quot;edn2&quot; style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;p&gt;&lt;a name=&quot;_edn2&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn2&quot; href=&quot;file:///I:/Arquivo/Backup_Vuca/Festa_d&#039;Miron/COMIDA%20E%20FILOSOFIA.docx#_ednref2&quot;&gt;&lt;u&gt;[ii]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt; Neste parágrafo, o uso predominante
do símbolo @ é para indicar a natureza da fonte documental consultada. Fonte em
formato digital, acedido, via net. &lt;/p&gt;

&lt;/div&gt;

&lt;div id=&quot;edn3&quot; style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;p&gt;&lt;a name=&quot;_edn3&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn3&quot; href=&quot;file:///I:/Arquivo/Backup_Vuca/Festa_d&#039;Miron/COMIDA%20E%20FILOSOFIA.docx#_ednref3&quot;&gt;&lt;u&gt;[iii]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt; Para conhecer melhor este filósofo,
consultar o link: &lt;a href=&quot;https://fr.wikipedia.org/wiki/Michel_Onfray&quot;&gt;&lt;u&gt;https://fr.wikipedia.org/wiki/Michel_Onfray&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;
&lt;/p&gt;

&lt;/div&gt;

&lt;/div&gt;

&lt;br&gt;</description>
            </item>
                    <item>
                <title>OUTROS TRILHOS DE HISTÓRIA DA ILHA DE SANTO ANTÃO (III):  Festa d’guarda-kabésa, p’inxotá Nhá Josefa, ne R’bêra dô Torrre.</title>
                <link>http://philosogogos.mozello.com/blog/params/post/1003872/</link>
                <pubDate>Thu, 03 Nov 2016 03:01:00 +0000</pubDate>
                <description>&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Como tínhamos anteriormente publicado em
nosso Apontamento, a nossa viagem vai ser longa, demorada, cansativa, na tentativa
de divulgação do nosso e vosso projeto &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Outros
Trilhos da História da Ilha de Santo Antão&lt;/i&gt;. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Dizem que “cavalo correndo por conta
própria não cansa, nunca!” E se assim é, vamos continuar correndo por conta
própria, mesmo que não nos deem nem palha, tampouco água. Força de vontade, e
reserva no bandulho é o que nós temos!&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Atentos ao chão em que estamos
pisando, mesmo correndo alguns riscos e com os olhos fitos sempre em frente, direcionados ao nosso
foco (a nossa meta), afirmamos, mais uma vez, aqui e agora, que o domínio de investigação onde
se enquadra o nosso projeto, é o domínio da história cultural. Estamos nos referindo a um
dos domínios da história que, hoje, pelos seus desafios, sejam estes intelectuais
e/ou emocionais, no plano académico ou na midia, está sujeito à críticas,
problemas e riscos de análise e, quem sabe, ataques vindos de&amp;nbsp;várias direções. E isto deve-se
ao fato de que “o historiador, enquanto produtor de um texto, e também o
público leitor, consumidor de História, devem assumir a dúvida como um
princípio de conhecimento do mundo” (Pesavento, s.d., p. 69). Citando essa
mesma autora arriscamos ainda em afirmar que &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A
racionalidade não explica tudo, operando o historiador com um regime de verdade
segundo o qual as conclusões podem ser admitidas como provisórias. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Há
mais dúvidas do que certezas, o que compromete o pacto da História com a
obtenção da verdade. Esse pacto resta como um valor a atingir, como uma busca
sempre renovada, de chegar o mais próximo possível do real acontecido. Mas o
resultado é sempre uma versão possível, plausível. Isso por vezes é confundido
com a tal postura pós-moderna que pesa como uma acusação sobre a História
Cultural: segundo essa abordagem, a História não é ciência nem visa a atingir
um conhecimento sobre o passado. Ela seria igual à Literatura, ou seja, visaria
a agradar, divertir, oportunizar fruição estética. Não teria maiores
preocupações com problemas sociais ou questões políticas maiores – estas, sim,
sérias – e só visaria a agradar o público, com uma História-passatempo. (Pesavento,
s.d., p. 69) &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Realmente, o projeto de investigação que tencionamos
empreender no domínio da história, apostado no desenvolvimento de temas no domínio da cultura que já começamos a divulgar e socializar em nosso blog, tem como objetivo, à luz das ideias
expressas no trecho acima transcrito, &quot;agradar&quot;, &quot;divertir&quot;, criar oportunidades
para a &quot;fruição estética&quot;, enfim, contribuir para edificação de uma “história-passatempo”. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Trata-se de um &lt;i&gt;hobby&lt;/i&gt; e nada mais, mas com segundas
intenções (boas intenções)! Aqui não estamos sob os condicionamentos de
procedimento metodológico e presos às formalidades científicas e académicas da “história que
todos contam”. Não é uma história posta ao serviço dos problemas sociais e/ou questões
políticas maiores e mais sérias, como diria a autora supramencionado e igualmente nos 
sugeriu que fizéssemos um ex-discípulo nosso, do Liceu. Informamos que esse
discípulo, foi um grande aluno nosso, hoje “homem feito, louvar a Deus!”, um excelente
profissional do Direito à busca de oportunidades, bom cidadão cabo-verdiano, um
conterrâneo santantonense e também nosso &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;kompas&lt;/i&gt;,
como diria o &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Mantókas&lt;/i&gt;. &amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Esse &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;kompas&lt;/i&gt;,
nos tratando de “meus mestres&quot; e &quot;grandes professores”, em seu comentário &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;post@do&lt;/i&gt; diretamente em nosso blog, um &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;esp@ço&lt;/i&gt; de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;p@rtilha&lt;/i&gt; e de muita &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;reflex@o&lt;/i&gt;,
afirmou categoricamente que hoje existe uma “decadência da ilha de Santo Antão,
em todos os níveis”. Vejam só meus senhores: decadência de uma ilha, a ilha que nos viu
nascer, em todos os níveis! &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Trata-se de uma afirmação muito arrojada que, sem
bazófia ou lisonja, demonstra que aprendeu muito com as aulas de filosofia que
connosco teve no liceu. Com o estudo dessa disciplina conseguiu “sair da
caverna”, libertou-se, como uns tantos outros, dos “grilhões da vida”. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Mas, meu &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;kompas&lt;/i&gt;, empreender
um projeto de investigação sobre a decadência da ilha de Santo Antão, em todos
os níveis? Neste preciso momento, abrenuncia! Se tivermos de o fazer um dia, &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;figa conhóta berdolega espanha…&lt;/i&gt; O que importa
é que o desafio está lançado. No futuro, quem sabe, juntos (eu, tu, ele/ela,
nos, vós, eles/elas…), possamos fazer disto um &quot;constructo&quot;, para o bem, o “bem
comum” da nossa ilha!&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Decadência, degradação, abandono, esquecimento, morte
e enterro… Nesta hora de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;festa de finçon
de (e ne) sintonton&lt;/i&gt;, uma &quot;festa triste&quot; que muitos consideram não ser festa,
mas que na realidade é uma festa porque, de acordo com a tradição desta ilha, tem
de comportar um momento de patuscada de comes e bebes. Perguntamos: quem não
gosta de um bom &lt;i&gt;Kefê d’funto? &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Senhores e senhoras, um &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;grogue pe trá boca de mort&lt;/i&gt;, pode ser? Vamos! Grogue goela abaixo fazendo
&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;clutch clutch clutch, moda ti Kémil &lt;/i&gt;irmão de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Irmon
Toi, &lt;/i&gt;que morreu em Ribeirinha de Jorge, Ribeira da Torre e foi levado p’ra &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Tchan d’Ilhéu, diazá&lt;/i&gt;… &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Passado alguns instantes, escutamos, baixinho, nesta
hora de dor e tristeza, uma voz oficiando em nome dos finados, de todos os
finados, inclusive o filho que cá em baixo, há dois dias foi “dado à terra”, no
Alto de São Miguel: &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Sans tibi Diminae Rex
eterna Glória, Amem&lt;/i&gt;&lt;a name=&quot;_ednref1&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn1&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn1&quot;&gt;&lt;u&gt;[i]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Pegando de novo no desafio que nos foi feito pelo
nosso &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;kompas&lt;/i&gt;, dizemos que pelo que pensamos
e nos ideais em que acreditamos, seria bastante interessante investir na &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Bildung&lt;/i&gt; da história tendo como possível mote
a génese e evolução da “morte” da ilha de Santo Antão, tantas vezes anunciada, precocemente,
já em tempo colonial, mas hoje mais visível&amp;nbsp;que nunca, porque existe uma
degradação desta ilha, em nosso entender, pelo menos, ao nível intelectual (pobreza de espírito). Afirmamos,
sem medo e nem tabus, que é uma degradação que se vislumbra há um palmo da nossa
testa. Vemos isso, todos os dias, em nossos locais de trabalho… Num simples
café ou bar, todos igualmente espaços públicos de socialização e comércio de
ideias. Quem diria, Santo Antão! &amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Vejam que esta
ilha, outrora, deu à Metrópole alguns “Cabo-verdianos ilustres”, passe as
expressões que tomamos emprestado num amigo de Cabo Verde em tempo colonial (décadas
de 50 e 60), o cidadão metropolitano e advogado Dr. António Barros (1961, pp.
34-35). Alguns deles, como redigiu, com provas dadas no domínio da ciência, arte
da navegação, defesa militar, política, etc. Temos, a título de exemplo, &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;…
Roberto Duarte Silva […], notável químico e professor em Paris, onde tem uma
estátua; […] Simão Alves Juliano [Simão Salvador] […], ilustre marinheiro, que
tem um busto na Praça do Comércio, no Rio de Janeiro; Viriato Gomes da Fonseca
[…], general, deputado e vogal do antigo Conselho Colonial. […]
&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Como
se vê, ministros, militares […], professores, homens de ciência, devendo
salientar-se, sobretudo, o cientista dr. Roberto Duarte Silva, honrado com um
busto em Paris, o que, só por si, em uma homenagem à altitude científica do seu
espírito”. (Barros, 1961, 34-35 grifos nossos) &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Mas, por agora não é&amp;nbsp;nossa intenção imiscuirmos-nos&amp;nbsp;em
assuntos da história social e política, mesmo que estejam esses motes de
investigação histórica a trespassar a nossa frente e sintamos um pouco à vontade
nestas matérias. Não são o nosso Foco. Quem sabe, um dia, possamos nos aventurar por essas bandas. Mas
atenção! Isso, em nosso entender, só quando tivermos ganhado o juízo
suficiente, mais velhos e demasiadamente experimentados em investigação
histórica. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Esta recusa, justifica-se pelo fato de não desejamos
ser condenados ao ostracismo ou à morte aqui na Povoação da Santa Cruz, (Vila
da Ribeira Grande a partir de 1732, &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Puvoçon&lt;/i&gt;
há uns anos e &lt;i&gt;Puva &lt;/i&gt;hoje) como na
antiga Grécia, em pleno contexto de uma democracia ateniense. Se bem que gostaríamos
de ter o traquejo de um Sócrates, Platão ou Aristóteles! Mas, não sendo
possível, contentemos com as lições dos sofistas…&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Fechado esse parêntese e para nos esquivarmos dos alentos
e ímpetos dos que se dizem ser eles especialistas em história,&amp;nbsp;os únicos detentores
do conhecimento histórico (história da arte, como nos afirmaram!) e que mesmo
sendo especialistas, ainda esses &quot;cérebros&quot; ou &quot;cabeças bem cheias&quot; não tiveram a coragem suficiente de usar os seus
títulos académicos e aquisições (graduações, pós-graduações, outros títulos mais) e suas aquisições e competências para
dar provas em investig@ção histórica, criando assim, como nós, um blog para efeito
de p@rtilha e socializ@ção das suas realizações e ideias (boas ideias como condição,&amp;nbsp;exigimos nós!) no campo do saber histórico, que&amp;nbsp;corresponde&amp;nbsp;à sua &quot;zona de conforto&quot;. Arriscar nunca é demais para um
professor (primário, secundário ou universitário) que pelo seu papel que
desempenha no domínio cultural e social, tem de ser empreendedor, por natureza. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;E nós, assumindo na plenitude os nossos saberes, como professores empreendedores em&amp;nbsp; ciências humanas e sociais, informamos que a nosso modo de fazer história não vai de encontro à história que “todos contam” e a
maioria faz, pensa e defende. É uma história que vai de encontro àquilo que é a
história hoje, direcionada para&amp;nbsp;várias linhas de investigação, sendo uma dessas direções as vivências do mundo sensível, associadas ao simbólico e ao&amp;nbsp;fantástico. É um
tipo de história muito &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;soft, &lt;/i&gt;descomprometida, não académica. Ou seja, uma história-passatempo associada às áreas&amp;nbsp;como antropologia,
etnografia, sociologia, filosofia, literatura e agora, num mudo cada vez mais
globalizado e prospetivo, surge-lhe como parceiro certo, uma grande colaboradora (ferramenta) as tecnologias de informação e comunicação (TIC). Estamos nos referindo à história cultural e não a história política ou àquela que se ensina atualmente no liceu. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A propósito daqueles
que defendem cegamente a ideia de especializações em história, fomentando a “unidimensionalidade”
do pensamento, citamos Edgar Morin (2003, p. 88) para&amp;nbsp;defender o&amp;nbsp;nosso projeto de investigação em história cultural. Este sim, um trabalho que&amp;nbsp;vai de&amp;nbsp;encontro à “pluridimensionalidade”
do pensamento e, escrupulosamente, rege-se pelos&amp;nbsp;ditames de uma “reforma
de pensamento”. Com base neste (sociólogo, historiador e filósofo) 
argumentando, defendendo que, &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Como todas as
coisas são causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes, mediatas e imediatas, e
todas são sustentadas por um elo natural e impercetível, que liga as mais distantes
e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo,
tanto quanto conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Há, efetivamente, necessidade
de um pensamento: […] que compreenda que o conhecimento das partes depende do conhecimento
do todo e que o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes; […] que
reconheça e examine os fenómenos multidimensionais, em vez de isolar; de
maneira mutiladora, cada uma de suas dimensões; […] que reconheça e trate as
realidades, que são, concomitantemente solidárias e conflituosas (como a
própria democracia, sistema que se alimenta de antagonismos e ao mesmo tempo os
regula); […] que respeite a diferença, enquanto reconhece a unicidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;É preciso
substituir um pensamento que isola e separa por um pensamento que distingue e
une. É preciso substituir um pensamento disjuntivo e redutor por um pensamento
do complexo, no sentido originário do termo &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;complexus&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;: o que é tecido
junto. De fato, a reforma do pensamento não partiria de zero. Tem seus
antecedentes na cultura das humanidades, na literatura e na filosofia, e é preparada
nas ciências. (Morin, 2003, p. 88)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Depois dessas longas considerações (algumas delas
farpas, e por isso desculpas a quem não merece ouvi-las, outros esclarecimentos necessários e, desde já perdão por
toda essa maçada de leitura, mas infelizmente inevitável!), passemos agora, sem mais
delongas, para o estudo do tema anunciado no subtítulo do nosso artigo. Se já estiverem
perdidos por causa&amp;nbsp;desses tantos rodeios, chamamos atenção que&amp;nbsp;estamos falando da festa de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;guarda-kabésa&lt;/i&gt;, uma outra “celebração
festiva sazonal” (Luchini, s.d.) que se realiza em Santo Antão e também nas
outras ilhas irmãs. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Percorrer sobre os trilhos da história dessa festa,
requer, sem&amp;nbsp;dúvida, fazer um trabalho histórico na vertente
popular, sentimental e oral (folclórica). Referimos-nos, concretamente,
à história sobre as estórias e contos que, associados à certas crendices e
superstições do nosso povo, alimentam o &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;espírito&lt;/i&gt;
&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;do tempo&lt;/i&gt; que é caraterístico de certas manifestações
culturais da ilha de Santo Antão, como a festa de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;guarda-kabésa&lt;/i&gt;, por exemplo. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Informamos que este artigo agora dedicado ao estudo dessa
festa é apenas um parêntese (um longo parêntese, o que já era&amp;nbsp;para nós previsível!) que
abrimos a fim de podermos compreender melhor a essência da festa de batizado. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A propósito de
estórias, superstições e crendices da ilha de Santo Antão, um dos seus domínios
de atuação é o “bruxedo”, como&amp;nbsp;dizem, “encantamento”, sustentado na ideia de
que existem bruxas, isto é, “pessoas que têm efeitos maléficos” e o poder mágico
ou sobrenatural de “comer uma criança” (Silva, 1998). É esta crença um dos
motes, se não o principal motivo, que sustenta a realização da festa de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;guarda-kabésa&lt;/i&gt;, nesta ilha, em Santiago e
nas outras ilhas do arquipélago de Cabo Verde. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo5.JPG&quot;&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Ciente dessa crendice nas bruxas, surge-nos agora uma necessidade, a necessidade de compreendermos melhor os significados de conceitos como &quot;bruxa&quot;, &quot;bruxaria, &quot;feitiçaria&quot;, o que requer uma clarificação dos mesmos no&amp;nbsp;campo lexical e semântico.&amp;nbsp;Pelo que atestam os autores Cabot &amp;amp; Cowan (1992)&amp;nbsp;“Bruxa”
é
uma palavra
&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;…deliciosa,
impregnada de antiquíssimas memórias que remontam aos nossos mais remotos ancestrais,
que viveram em estreito contato com os ciclos naturais e apreciaram o poder e a
energia que compartilhamos com o cosmo. A palavra Bruxa pode instigar essas
lembranças e sentimentos, até no espírito mais cético.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A
própria palavra evoluiu através de muitos séculos e culturas. Há diferentes
opiniões sobre as origens da palavra inglesa Witch (bruxa). No anglo-saxão
antigo, wicca e wicce (masculino e feminino, respectivamente) referem-se a um
ou uma vidente, ou aquele (ou aquela) que pode prever informações por meio da magia.
Dessas palavras radicais derivamos a palavra wicca, um termo que muitos na Arte
usam hoje para se referirem às nossas crenças e práticas. Wych em saxão e wicce
em inglês arcaico significam “girar, dobrar, moldar”. Uma palavra radical indo-europeia
ainda mais antiga, wic, ou weik, também significa “dobrar ou moldar”. Como
Bruxas, dobramos, subjugamos as energias da natureza e da humanidade para
promover a cura, o crescimento e a vida. Giramos a Roda do Ano à medida que as
estações passam. Moldamos nossas vidas e ambientes para que promovam as boas coisas
da Terra. A palavra Witch também pode ter a origem na antiga raiz germânica wit
– saber. E isso fornece igualmente um certo insight sobre o que é uma Bruxa – uma
pessoa de saber, versada em verdades científicas e espirituais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Nas
origens de muitas línguas, o conceito de “Witch” fazia parte de uma constelação
de vocábulos para significar wise (sábio) ou “wise ones” (os sábios). Em
inglês, vemos isso com extrema clareza na palavra magic, a qual deriva do grego
magos e da palavra persa arcaica magus. Ambas estas palavras significam “vidente”
ou “feiticeiro”. No inglês arcaico, o vocábulo wizard significava “o que sabe”.
Em muitas línguas, Bruxa é a palavra encoberta nos termos comuns, cotidianos,
para sabedoria. Em francês, a palavra para parteira é sage-femme, “mulher sábia”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A
sabedoria enriquece a alma, não apenas o espírito. E diferente da mera inteligência,
informação e sagacidade, que só residem na mente. A sabedoria vai mais fundo do
que isso. Quando o cérebro, com sua multidão de fatos e peças de informação,
deixa de existir, a alma persistirá. A sabedoria imarcescível da alma
sobreviverá.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A
palavra grega para a alma é psyche. Pensamos frequentemente nos psíquicos como
indivíduos talentosos e raros porque podem usar como fonte essa sabedoria
universal, mas o dom não é raro. Todos nós o possuímos; cada um de nós é um indivíduo
dotado de alma. Todos dispomos de poderes psíquicos ou poderes anímicos, e cada
um de nós pode reaprender – ou recordar – como usá-los.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Embora
homens e mulheres compartilhem do poder da magia, a palavra Witch tem estado
mais comumente associada a mulheres do que a homens; no entanto, os homens na
Arte são também denominados Witches (Bruxos). Durante a Era das Fogueiras, 80%
dos milhões de pessoas que foram queimadas vivas por prática de feitiçaria eram
mulheres. Ainda hoje, a maioria dos praticantes da Arte são mulheres, embora
esteja aumentando o número de Bruxos. Há uma boa razão para pensar na
Feitiçaria como uma Arte feminina. O poder de uma Bruxa ocupa-se da vida, e as
mulheres estão biologicamente mais envolvidas na geração e sustento da vida do
que os homens. Não é uma coincidência que quanto mais homens se fazem presentes
no momento do parto e assumem responsabilidades na assistência ao bebê
recém-nascido, maior é o número de homens que se interessam pela Arte. O espírito
dos tempos está levando homens e mulheres a restabelecerem a ligação com os
mistérios da vida que se encontram nos ritmos naturais da mulher, da Terra e da
Lua – pois os mistérios da vida são os mistérios da magia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A
magia é o conhecimento e o poder que promanam da capacidade de uma pessoa para
transferir a seu talante a consciência para um estado inabitual, visionário, de
cognição ou percepção inconsciente. Tradicionalmente, certos meios e métodos
têm sido usados para causar essa transferência: dança, canto, música, cores,
aromas, percussão de tambores, jejum, vigílias, meditação, exercícios
respiratórios, certos alimentos e bebidas naturais, e formas de hipnose.
Ambientes espetaculares e místicos, como bosques, vales e montanhas sagrados,
igrejas ou templos, também alterarão a consciência. Em quase todas as culturas
alguma forma de transe visionário é usada para os rituais sagrados que abrem as
portas para a Inteligência Superior ou para o trabalho mágico. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Desde
os tempos neolíticos, a prática da Feitiçaria sempre gravitou em torno de rituais
simbólicos que estimulam a imaginação e alteram a consciência. Rituais de caça,
experiências visionárias e cerimônias de cura sempre tiveram lugar no fértil
contexto dos símbolos e metáforas próprios de cada cultura. Hoje, as meditações
e sortilégios de uma Bruxa continuam essa prática. O trabalho de uma Bruxa é
trabalho mental e utiliza poderosas metáforas, alegorias e imagens para revelar
os poderes da mente. Os índios Huichol do México dizem-nos que a mente possui
uma porta secreta a que chamam nierika. Para a maioria das pessoas, ela
permanece fechada até o momento da morte. Mas as Bruxas sabem como abrir e
transpor essa porta ainda em vida e trazer de volta, através dela, as visões de
realidades não ordinárias que propiciam finalidade e significado à vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;As
imagens e os símbolos da Feitiçaria possuem uma qualidade misteriosa e mágica
porque tocam em algo mais profundo e mais misterioso do que nós próprios.
Desencadeiam verdades perenes represadas no inconsciente, as quais […] fundem-se
com as respostas instintivas do reino animal e podem abranger até a criação
inteira. O conhecimento mais profundo, do outro lado da nierika, é sempre conhecimento
do universo. Está sempre presente, ainda que, como a chama de uma vela na luz
ofuscante do sol, pareça invisível e incognoscível. Mas a magia transporta-nos
para esses domínios profundos do poder e do conhecimento. Ela nos leva a
mergulhar na suavidade do luar, onde a chama de uma vela cintila constante.
Pode fazer nos transpor a nierika e depois trazer-nos outra vez de volta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Os
conhecimentos profundos que provêm do inconsciente nem sempre podem ser expressos
em palavras; requerem frequentemente a poesia, o canto e o ritual. Algures no
centro da alma humana existe um senso de identidade que jamais pode ser
transmitido somente por palavras de um ser humano para outro. Cada um sabe
haver em si muito mais do que pode ver ou expressar, tal como sabe haver no
universo mais do que atualmente compreende. Na melhor das hipóteses, o
indivíduo só pode fornecer alusões e lampejos do seu eu mais profundo através das
coisas de que gosta, daquilo que teme, do modo como se desempenha, da forma
como sorri. Guardado no centro do seu ser está o segredo do que ele é e do modo
como se relaciona pessoalmente com o resto do universo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;O
conhecimento que uma Bruxa tem de si mesma, da natureza, do poder divino que transcende
o próprio cosmo pode expressar-se melhor através do mito, símbolo, ritual,
drama e cerimônia […]. E verificamos assim que, desde os tempos mais remotos, homens
e mulheres virtuosos de todas as culturas criaram práticas ricas em símbolos e
metáforas que a mente inconsciente reconhece e entende intuitivamente: tambores,
gemas, penas, conchas, varas de condão, taças, caldeirões, ferramentas sagradas
e vestimentas feitas de plantas sagradas, animais e metais repletos de poder. São
essas as imagens que revelam os padrões de conhecimento que estão subjacentes
no universo físico. São essas as imagens que nos conduzem ao poder secreto que
se oculta no centro das coisas, incluindo os nossos próprios corações. Com
esses ritos e imagens podemos – como dizem as Bruxas – ‘puxar para baixo a Lua’.
(Cabot &amp;amp; Cowan, 1992, pp. 26-30)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Queremos anunciar&amp;nbsp;que o subtítulo
completo deste artigo é &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Festa
d’guarda-kabésa&lt;/i&gt;, &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;p’inxotá&lt;/i&gt; &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Nhá Josefa… Kel&lt;/i&gt; &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;bruxa de rób ézéd ê&lt;/i&gt; &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;k’te k’mê
nó gót, ne kôtchôrr, ne Fernendin di meu, nhê primer amor; Kantamás, pá ká k’mé
kel ónje d’ Bia de Silvestra, um mês e pôc dia d’pôs de sê dia de sét ne R’bera
dô Torre&lt;/i&gt;. Daí que pedimos
licença aos nossos leitores e, ao próprio autor da obra consultada (Dias, 2006) o nosso pedido de autorização (com humildade, responsabilidade, motivação plausível&amp;nbsp;e boas intenções) para&amp;nbsp;transcrevermos na íntegra a sua
e, neste caso, a nossa “estória da Nhá Josefa”, uma estória, para nós, &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;mut séb&lt;/i&gt;, mas para muitos pode ter o
sabor de &lt;i&gt;“grog máfe que ‘Ntône Rôbôc anda entornando goela
abaixo”, &lt;/i&gt;isto é,&lt;i&gt; &lt;/i&gt;concretamente para aquelas pessoas que ainda acreditam em bruxas, em pleno século XXI, era da &quot;Electra&quot;. Electra sim!&amp;nbsp;Mas, menos nos&amp;nbsp;dias chuvosos e na hora de cobrar a fatura.&amp;nbsp;Agradecendo à ela&amp;nbsp;diria &#039;&lt;i&gt;luz pógód, czement órmód&#039;&lt;/i&gt;, o nosso&amp;nbsp;&lt;i&gt;Djunga&lt;/i&gt;, &lt;i&gt;Pé Jôn Rezlina&lt;/i&gt; (João Nascimento Medina, 1914-2002), uma grande figura de Ribeirinha de Jorge, residindo eternamente hoje,&amp;nbsp;no Alto de São Miguel.&amp;nbsp; Paz na tua alma, &lt;i&gt;Djunga&lt;/i&gt;!&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo7.JPG&quot;&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Essa estória é um caso de&amp;nbsp;&amp;nbsp;bruxedo na
Ribeira da Torre&lt;a name=&quot;_ednref2&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn2&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn2&quot;&gt;&lt;u&gt;[ii]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;, uma das principais
ribeiras do concelho da Ribeira Grande, que começa esconjurando uma senhora (uma
bruxa até nosso familiar, por afinidade, por isso muito cuidado!) que muita gente,
assim como o próprio autor ainda ‘&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;huminha’&lt;/i&gt;
e nós um &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;“gron d’mi”&lt;/i&gt; como nos chamava
César, &quot;o desgraçado&quot;… também pensávamos, inclusive o próprio malogrado César, a nossa Tia Gina (que ingrata!) e outros &lt;i&gt;kompas d&#039;infância &lt;/i&gt;em Fajã Domingas Benta, ser ela&lt;i&gt;&amp;nbsp;um &lt;/i&gt;&lt;i&gt;fetcêra d’rób ezéd. &lt;/i&gt;Começa assim essa estória:&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Figa
cónhota berdolega espanha! Dedos em cruz atrás das costas, os passos voando lestos
na estrada empoeirada do vale, á caminho da escola do Marrador. Mi’m n’tem
poder c’mim, Nhá Josefa! Coração palpitando. Medo. Ninguém ao redor, chiça! E a
casa de Nha Josefa mais perto. Cada vez mais perto. Já vejo a porta da cozinhóla.
Hoje o César não me esperou, o desgraçado, mas ele me para! Figa cónhota berdolega
espanha figa cónhota berdolega espanha! Quem é o vulto preto no corredor da
casa? Será ela, meu Deus? Ave Maria cheia de cheia de graça… Rezo em silêncio
para espantar o medo. E a lembrança das histórias de ontem à tardinha na
soleira da porta, que justo agora teimam em alfinetar-me o juízo, os olhos
vidrados daquele anjo de Bia de Silvestra, vocês viram? Coitadinho, apenas um
mês e cinco dias! Eu não quero botar falso em ninguém, mas… Olha a boca,
comadre!, coitado é esteira e saco de larau. Agora ele está no regaço de Virgem
Maria! Ah!, qual estória, o que é verdade tem de ser dito então vocês não viram
como ficou o cabelo daquela filha de Tanha de Lombo de Pico? Bastou ela passar
a mão na cabeça da pobrezinha e… E aquela luz que, ‘Ntône Rôbôc viu no outro
dia de madrugada entrando pela janela da casa, ahhhann?! Bando de b’jenerentas,
o que ele viu foi a luz de grog máfe que ele anda entornando goela abaixo hora
sim hora não! A mim, Gregória de Nhô Piduca, ela não mete medo (e o facão
riscando a pedra de molar em faíscas de raiva e revolta...)&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Era
sempre assim, quando passava pela casa de Nhá Josefa, a caminho da escola.
Sempre esta angústia e este medo, que só terminava quando dobrava a curva à
frente de Nhá Maria d’Antónia, já em Marrador. A pequena asa [&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;sic&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;, mas deduzimos tratar-se não da asa,
asa da bruxa pelo simples fato de poder voar através da sua arte, mas sim casa,
a casa onde; trata-se de um erro de digitação], coberta de palha-tinguinha, com
uma casinha ao lado, ficava mesmo em cima do caminho a alguns metros no topo de
um pequeno promontório ali na Boca de patinhas, perfilando-se entre as
mangueiras da encosta como sentinela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Morríamos
de medo do olhar de Nhá Josefa, a quem as pessoas diziam ser uma das mais
tenebrosas e insaciáveis bruxas daquelas redondezas (Manél de Jóna Chica, entre
um grogue e outro, ter visto o rabo de Nhá Josefa entrando pela pequena janela
do sobrado, num dia de madrugada quando ia a caminho trapiche de Jôn d’Canda, e
que só escapou de ser comido vivo porque sacou rapidamente uma mãozada de sal
que traz sempre no bolso!). Mamãe brigava feio comigo por acreditar nessas
leviandades. Que ela era uma mulher de bem, que ninguém tinha o direito de
levantar essas calúnias, que essas coisas de bruxa não existiam, etc. etc. Uma
vez até levei umas varadas quando recebeu queixume de que eu tinha fugido em
correria desastrada de Nhá Josefa, como se ela fosse gongon (na verdade ela me
tinha chamado, para levar um recado à minha mãe – como vim a saber depois – mas
o pavor levantou-me os pés do chão e voei ribeira abaixo, parando apenas quando
cheguei à esquina da casa de Jóna Tosa em fajã de Trás…)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Anos
depois regressei à ilha, homem feito e já sem medo de bruxas. A Electra já
tinha acabado com as bruxas e gongons no fundo dos caboucos, e, numa das
caminhadas pelo valecom omeu irmão mais velho, fui encontrar Nhá Josefa
descansando à sombra das mangueiras debaixo da sua casa. Parei ali com ela
alguns minutos numa alegre cavaqueira, ela espantando-se pelo menino cabeçudo
que sempre por ela passava a correr (ah se adivinhasse porquê!!) e agora tinha
virado homem louvar-a-Deus! Fui caminhando depois pela mesma estrada empoeirada
da minha adolescência, sorrindo em silêncio… (Dias, 2006, p. 29)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Essa
estória de Nhá Josefa fala dos atos de bruxaria no Vale da Ribeira da Torre, Santo
Antão, atos que segundo Manzanares (s.d., p. 43) têm um “carácter fantástico e
medonho”. E isso se explica,&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;…pelo
facto de serem resultantes da crença e prática relacionadas com supostos
poderes mágicos de algumas pessoas com o objectivo de alterar o curso normal
dos acontecimentos. Cientificamente ainda que alguns historiadores se inclinem
para considerar a bruxaria como fragmento de uma cultura matriarcal, a maioria
prefere interpretá-la como um fenómeno de indiscutível oposição ao
cristianismo. O facto é que são inegáveis a relação da bruxaria com os
movimentos esotéricos, ocultistas e satânicos. Tanto a Bíblia como autores
cristãos de todas as épocas, indicam o seu caracter maléfico em todas e em cada
uma das suas manifestações, bem como da sua impossibilidade de conciliação com
o cristianismo. (Manzanares, s.d., p. 43)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Partindo desta impossibilidade de
conciliação entre a bruxaria e o cristianismo (catolicismo), religião oficial
do colonizador, podemos, então, afirmar que esta crendice na bruxaria e que no
passado se apoderou do povo de Santo Antão, é uma tradição que nós herdamos dos
escravos vindos da África e que foram trazidos&amp;nbsp;entre os séculos XVIII-XIX pelos senhores, diretamente
da ilha de Santiago, para trabalharem nos campos em Santo Antão, por exemplo
nas terras de regadio e sequeiro da Ribeira da Torre, onde, como veio residir Nhá Josefa. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A bruxaria, &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;fetiséria&lt;/i&gt;, como escreveu Tomé Varela da Silva (1998) era “uma
crença com bastante peso na sociedade cabo-verdiana, décadas atrás. Hoje, já
quase ninguém acredita na realidade da sua existência, que antes era tida como
um facto quase indiscutível por muita gente” (p. 158). &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo2-1.JPG&quot;&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Minucia ainda o autor supramencionado vários
espetos importantes desta crendice, que pela variante do crioulo por ele empregue em seu texto citado em baixo, deduzimos que são aspetos da bruxaria típicos da tradição de Santiago, mas válidos, igualmente, de Santo Antão à Maio e de Fogo à Brava. E nos aventurando,
sem medo dos ‘fetiseru’ ou&amp;nbsp;‘fetisera’, &lt;i&gt;&quot;figa cónhota berdolega&quot;&lt;/i&gt; passamos a esclarecer 
o seguinte:&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;…
era-se ‘fetiseru’ ou ‘fetisera’ (homem ou mulher) independentemente da vontade
própria. Pois acreditava-se que se nascia ‘fetiseru’ ou ‘fetisera’, por uma
espécie de hereditariedade. Filho ou filha de pai ou mãe ‘fetiseru’ tinha uma
tend~encia (que se diria natural) para ser também ‘fetiseru’. Em casos em que
isso não acontecia, tornava-se necessário uma proteção especial ao
recém-nascido por parte do progenitor não ‘fetiseru’. Caso contrário, o ódio do
progenitor ‘fetiseru’ sobre a criança seria certamente fatal para ela: seria
‘comida’ por ele. Acreditava-se que se podia dar o caso de um casal de ‘fetiserus’.
O casal seria muito harmonioso (ao contrário do que aconteceria quando um
elemento do casal não fosse ‘fetiseru’) e muito dificilmente teria um filho não
‘fetiseru’. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;‘&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Comer’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt; uma criança ou uma pessoa
qualquer (por um ‘fetiseru’) consistia numa habilidade própria de ‘fetiserus’
em reter (‘&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;pega’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;) o espírito dessa
pessoa fora dela. Como se crê que o espírito é vida, o facto de separá-lo do
corpo acabaria por, em mais ou menos tempo, provocar a morte da pessoa visada.
Então, o próprio corpo da pessoa serviria de alguma forma de manjar do ‘fetiseru’.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Para
proteger uma criança contra um ‘fetiseru’, de vários estratagemas lançavam
mãos: cruzes desenhadas com ‘leite’ de babosa na testa, no peito, nas costas,
nas palmas das mãos, nas plantas dos pés, lavar a criança com urina fermentada (de
preferência urina da mãe)&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_ednref3&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn3&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn3&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;[iii]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;;
pôr dependurado ao pescoço da criança dentes de alho; esfregar a criança com
alho; prender a criança determinados amuletos, etc. Tudo coisas que o ‘fetiseru’
detestaria. O adulto protegia-se do ‘fetiseru’ bebendo um puco de ‘leite’ de
babosa ou esconjurando sempre que visse em situações ou circunstâncias
suspeitas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A
pessoa julgada de ‘fetiseru’ vivia quase sempre socialmente marginalizada, numa
espécie de ostracismo individual ou familiar, com o espírito, quase sempre em
sobressalto e numa contínua angústia. Com efeito, sempre que se tivesse uma
febre nas redondezas era passível de ser acusada com estando na origem daquele
mal-estar; se uma criança adoece de repente e morre, el seria tida como
causadora dessa desgraça. […]&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Os
‘fetiserus’ seriam portadores de ‘&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;rabu’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;
(um sinal físico)&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_ednref4&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn4&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn4&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;[iv]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt; que normalmente se
localizava em partes do corpo menos expostas (de preferência em três sítios:
junto do ânus – seria o mais habitual; na cabeça – entre os cabelos; e num dos
olhos – sinal lembrando unha de gato). Podia tomar diversas formas (de gato, de
boi, de carro, de qualquer outra coisa possível ou imaginária) com o fito de
espantar pessoas, sobretudo a noite. Acreditava-se que quando uma pessoa se
espanta, o seu espírito deixa-lhe o corpo por momentos. Seria então uma
oportunidade excelente o ‘fetiseru’ lhe reter o espírito, que ficaria sem
voltar ao corpo se para o ‘fetiseru’ não viesse a ‘&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;largá&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;-lo’, provocando assim a morte da pessoa em causa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Acreditava-se
que, desde o começo da noite até à meia-noite, os ‘fetiserus’ podiam entrar em
ação ordinária. Para isso, depois, de besuntarem por três vezes seguidas os
respectivos sovacos e virilha com um óleo próprio que costumavam guardar
religiosamente em ‘bolis’(cabaças), dizendo: […] por cima de todas as árvores,
excetuando […] canaviais&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_ednref5&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn5&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn5&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;[v]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;
[…], os seus espíritos deixariam os respectivos corpos (que ficariam na cama
aparentemente inanimados), não sem antes serem convenientemente destripados e
guardados em sítios onde não podiam apanhar terra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Os
espíritos dos ‘fetiserus’, ao deixarem, o corpo, esvoaçariam como passarinhos e
poderiam ser vistos por qualquer como sinais luminosos deslocando-se no ar, de
um lado para outro. Mas, mal se pousassem, as luzes desapareceriam. Se nesse
esvoaçar fossem apupados, voltariam em direcção à pessoa que os apupou com a
intenção de lhes fazer mal. Se a pessoa que os apupou entrasse para dentro de
casa, o espírito apupado pousar-se-ia sobre a casa e faria uma série de
desacatos para punir a pessoa. Se entretanto, a pessoa tiver dentro de casa
tiver dentro de casa um caule de canavial [‘Karis] aguçado e ao espetar (de
baixo para cima) no teto da casa enquanto o ‘fetiseru’ lá se encontrar, este
ficaria preso pelo tempo que o canavial se mantiver espetado no tecto. Seria
uma das formas de ‘pegar’ (prender) o ‘fetiseru’ que, com o amanhecer, chamaria
a si o corpo e se transformaria na verdadeira pessoa que era, revelando assim
publicamente sua verdadeira identidade. Mesmo assim só desceria da casa quando
o espeto fosse retirado do tecto. […]
&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Para
certificar de que alguém era ‘fetiseru’, acreditava-se que se poderia socorrer
de alguns estratagemas: a) dar de beber a esse alguém e ao receber de volta o
recipiente em que bebeu, emborcá-lo (a pessoa só iria daí, quando o recipiente
fosse desemborcado); b) esse alguém entrou em casa de outrem para cavaquear ou
por qualquer outra razão: se o dono da casa pega numa agulha de coser e espeta-a
no batente da porta para onde aquela terá de sair, essa pessoa, não deixa a
casa enquanto não se retirar a agulha do batente. também, se acreditava em
determinadas orações para o efeito. Neste caso, o ‘fetiseru’ só é ‘solto’,
quando a pessoa que o ‘pegou’ [amarrou] ‘desfazer’ (rezar do fim para o
princípio) a oração. (Silva, 1998, 158-161)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-secondary&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo4.JPG&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A propósito de alguns dos aspetos que nutrem
esta crendice na ilha de Santo Antão, segundo Rocha (1990, p. 104), existe um
que permitia as pessoas acreditar nos “poderes mágicos existentes em certas
famílias, como as feiticeiras, as bruxas e os fadários. As feiticeiras traziam
atrás um rabo e quando voavam a noite emitiam luzes”. Como diz o próprio autor, &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Reuniam-se
geralmente às sextas-feiras no campo, Curral da Ruça, e tinham que ir buscar o
Miguel Benedito, célebre curandeiro, para lhes cortar o rabo, arremessando um
compasso –, o compasso de nhô Miguel Benedito&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_ednref6&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn6&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn6&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;[vi]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;As
feiticeiras mais perigosas, dizia-se, possuíam sete artes e quando qualquer
chegasse a nossa casa e pedisse água, ficava amarrada se a gente emborcasse o
copo por onde tinha bebido. Só se ia embora quando a gente desemborcasse o
copo. (Rocha, 1990, p. 104)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-secondary&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo3.JPG&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Fernandes (1998) diz que em Santo
Antão, mais concretamente na zona de Corda, as bruxas “levantam vôo,
fop-fop-fop! Rumo ao Curral da Russa, uma região montanhosa, situada a Oeste da
Ilha” (p. 20). Sobre a crendice no bruxedo, suas peripécias, incidentes, sequelas
e desmistificações da parte da população nas várias localidades desta ilha, pela
pena dessa autora, ficamos a saber muita coisa. Diz ela: &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Antes
de as bruxas saírem em direção aos destinos, são chamadas pelo ‘pontador’,
depois de se verificar se todas elas estão presentes.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Esvoaçando
de covoada em covoada, bordeira em bordeira, as bruxas chegam mesmo a atingir
grandes altitudes. Nunca são distinguidas fisicamente, pois na altura do
levantamento do vôo, desprendem-se em forma de ‘pé de vente’, deixando contudo,
rastos de lume, aqui e acolá. &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Os
rabos das bruxas, sempre que possível, são extraídos por Nhô Pidrin, homem
sobejamente conhecido nessas andanças de ‘corta-rabo’. O rabo, nunca é decepado
ou arrancado violentamente, já que está diretamente ligado ao ânus, através de
um tubo que se desenrodilha facilmente. &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Existe
também o ‘compasso’, que vai determinar a posição do referido rabo. Com esta
operação a bruxa nunca mais volta a voar e os distúrbios que possa provocar,
são de pouca monta.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Porém,
é importante estar-se alerta, aquando do nascimento das crianças, rigorosamente
sete dias e noites, evitando-se que elas sejam arrebatadas pelas bruxas, logo à
nascença. Estas bruxas que vão avisando, não comerem filhos de pobreza!&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Nhanha,
a minha avó, conta que as bruxas ainda para ludibriarem as pessoas, encarnam-se
em ratos, bestas, gatos, centopeias e baratas.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Se
se desconfiar desse acto, deve-se logo ‘estamborar’ esses ‘bitche’, antes que
danifiquem vidas humanas.&amp;nbsp;[…]&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Já
Tuda diz […] antigamente, se uma pessoa tivesse ‘fama’, o bruxo era forçado
pelas pessoas, a queimar a rebeca cujo arco fora confecionado co tripa de gato
preto, poi é lá que está toda a ‘desonestraçon’. &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Hoje,
a informação que nos é dada por quem de direito, é a de que, essas faíscas tão
propaladas pela população, pressupõe-se, só são sentidas nos cemitérios,
normalmente pela calada da noite, quando os corpos entram em estado de
putrefacção, provocando as tais faíscas (focus-fatuo).&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Nha
Pedrinha que ouvia com atenção, todas estas advertenças acrescenta: afinal,
deixei eu já de compreender Apesar de que a esta nossa ilha, Santo Antão, é
rica em bitche, como canelinha, bejon, capatona, encantado, mossôngue e montes
de bruxas! Já a agora, por falar em encantado, necessário se tornaria
esclarecer, a essa gente, da existência ou não de toda essa ‘bejuneria’, porque
do contrário, ter-se-á de pagar pelo que não se deve.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Isabel
era uma mulher trabalhadora; costurava dia e noite; remendava, fiava, por
encomenda e fazia todo o trabalho de casa, nunca dispondo de uma horinha, para
repousar.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;E
quantas vezes ia, noite fora, buscar água à fonte? Uma vez, ou outra, na época
das chuvas, aproveitava para tomar um rápido banho na água das ribeiras, em
pleno silêncio da noite!&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A
certa altura Isabel fora surpreendida por um aglomerado de pessoas que a
atacam, tratando-se de bruxa rabiosa, pois uma mulherzinha afastada de casa a
essa hora avançada da noite, claro que fizera contrato com o diabo! Ao
regressar a casa, Isabel fora cercada, espezinhada, enquanto lá ia fazendo
convencer as pessoas da sua inocência, perante uma acusação brutal e estúpida.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A
vizinhança, gente que a conhecia, tentou defendê-la, afirmando ser uma mera
confusão, posto que a senhora sempre fora respeitada por todos, bem conhecida
no meio, sendo uma boa dona de casa; decente, enfim, arrumadinha! Longe de ser
uma bruxa, já que esta é suja e feia!&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Todavia,
ninguém se convenceu, pelo contrário, fizeram-lhe ‘figas’, esconjurando-a.
Bastas vezes agarram-na, conduzindo-a à porta da Igreja, onde era espancada com
o fim de a libertar do espírito embruxado. O padre revolteou-se contra essa
conflituosa situação e tentou impor a sua autoridade na qualidade de pároco da
freguesia, chamando a consciência dos cristãos, do grande mal que provocavam e
instalavam no local.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Pouco
tempo depois, Isabel é hospitalizada. Sucumbe e é conduzida à casinha térrea,
mas ossada. A iluminar o caixão, quatro banquetas confeccionadas de tronco de
árvore, suportam as lamparinas a petróleo.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Conduzido
corpo à Igreja, foi a homilia; os responsos, enquanto o padre pedia que se
rezasse um Padre Nosso, para salvação dessa alma. Mas o silêncio e a revolta
fundem-se! Vai daí, Nho Atanázio, fora a de, imediatamente, pôr as bruxas a
dançar, pois enquanto dançavam, não devastavam.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Nhô
Atanázio que trepava uma laranjeira, empunhava o violino e as bruxas,
euforicamente, pulavam e faziam roda cá em baixo, dançando mazurka, valsa,
contra-dança, até cansarem.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Muitas
pessoas questionavam a razão da invasão de tantos feiticeiros em Santo Antão! É
que essas rochas altaneiras, conseguem albergar dezenas e dezenas de bruxas,
dando vazão à sua arte acrobática, largando ‘fatcha de lume’, por todas as
bandas. &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Quando
crianças, Nha Felisberta nos contava que verdade, verdadinha, nunca existiam
bruxas. Mas o problema é que para apanhar lenha na merada , semear milho e
feijão, coroar, sachar, mondar; guardar corvos e pardais; apanhar cagarras,
terão de andar noite inteira, transportando fatcha de lume, ao menos para não
caírem nos ‘pedôrom’. &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Mesmo
assim as pessoas podiam ser agredidas à catana, quando saíam à casa de um dia
de jornada, para sustento da casa. Foi o caso do hoem de Nha Felisberta que
chegara a casa com o corpo ‘espancadeado’.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Pobre
do homem que se foi esmirrando; ‘corpo esmurce’, até morrer!&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Quanto
a Nho Junzin Curandér, ao ser chamado de urgência, é tão somente para nos ajudar
a defender dos vizinhos, que nos trazem sempre ódio e malquerênça. De imediato
ele invoca o nosso anjo da guarda, enquanto consulta o &#039;lumiador&#039;, que é um
instrumento em vidro e cristal. Este, em contacto com o sol, permite ao
curandeiro descobrir algo à volta da aura do sujeito em questão, verificando-se
desta maneira, se a pessoa está limpa de corpo e alma. Recomenda ainda o
curandeiro, que se misture alecrim, eucalipto, contra-peçonha e gotas do
líquido de babosa, a um pequeno feixe de cabelo de cinta; este depois de
reduzido a pó, tomar duas colheres de chá dessa substância de manhã e à noite.
Também que se enterre à porta da casa, uma garrafa de xarope , confeccionado
com vinho quinado, arruda, alho, sementes de mostarda; tomar três vezes ao dia
(colher grande).
(Fernandes, 1998, pp. 20-24)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Determina um tal&amp;nbsp;ditado popular espanhol que “eu não acredito
em bruxas, mas que elas existem, existem”. E se existem, &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;figa konhóta berdoléga espanha, figa konhóta berdoléga espanha, figa konhóta
berdoléga espanha!&lt;/i&gt; &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Nôs ê morgôs, bzôt
n’den puder k’nôs… pê frent ê k’te kémin, n’óra de Deus!&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Após esses&amp;nbsp;esconjuras de afugentar bruxas,&amp;nbsp;temos a dizer&amp;nbsp;&amp;nbsp;que há bons anos atrás, acreditavam em Santo Antão, que
deveras existiam bruxas nas diversas localidades da ilha. Quando nascia uma criança, sete dias depois, os pais
junto dos familiares e vizinhos tinham de fazer a&amp;nbsp;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;guarda-kabésa&lt;/i&gt;, para a proteger das bruxas, criaturas estranhas que,
em suas “ações ordinárias”, tendem “comer”, de acordo com “habilidades próprias”,
o recém-nascido, retendo (‘&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;pegando’&lt;/i&gt;)
o seu espírito fora dele, separando-o do corpo, o que acabaria por provocar a sua
morte, numa fase muito precoce da sua vida. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Sabe-se
que, do nascimento ao sétimo dia probatório da vida do neófito, ele enfrenta as
mais diversas dificuldades de sobrevivência, por isso tem de se lhe prestar muitos
cuidados, uma vez que estando “nu, desamparado e frágil” (vulnerável), susceptivelmente, podia
ser alvo da cobiça de uma bruxa, que voava a noite, desde “&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Curral da Ruça”&lt;/i&gt;, em direção à casa dos
pais para o “pegar” dormindo, e assim o poder “experimentar” ou “comer” conforma fosse o caso. Daí
que, todo o cuidado era pouco para o defender. A bruxa podia se transformar em
animais, por exemplo, gatos,&amp;nbsp;cães, insetos, etc., sendo a sua presença difícil de ser detetada. Fazia todos
os seus intentos e usava várias artimanhas com o objetivo de “comer” o recém-nascido
na noite do sexto para o sétimo dia após a sua vinda ao mundo. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A
festa de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;guarda-kabésa&lt;/i&gt; acontecia na
noite do sexto para o sétimo dia após o nascimento de uma criança. Tinha lugar
em casa dos pais de cada neófito. Pessoas amigas e vizinhança eram convidadas para
tomarem parte no acontecimento. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Mais do que nunca, nesse dia, o 
neófito tinha de&amp;nbsp; estar sob uma contínua e apertada vigilância da parte da mãe desde o cair da noite, numa tentativa zelosa de impedir a aproximação de uma bruxa (Nhá
Josefa, por exemplo, na Ribeira da Torre!) que, decerto, tentaria “comer-lhe” o
menino ou a menina. Para tornar mais remota essa possibilidade, punha-se debaixo do
travesseiro da cama tesouras abertas, e várias agulhas espetadas no colchão;
debaixo da cama, facas, machados, garrafas partidas. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo1-2.JPG&quot;&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Tomé Varela da Silva (1998) autor
supramencionado acrescenta ainda que “Ao redor da cama em que repousa o recém-nascido,
algumas vizinhas cavaqueando. Na sala, muita animação e conversa, jogos de
carta, comes e bebes” (p. 162). Conforme esse autor, &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;A
certa altura, tudo é interrompido para dar lugar ao […] fazer cristão […] da
criança em guarda, numa espécie, numa espécie de prevenção a uma possível morte
[…] de criança não batizada. Serve de padre qualquer catequista (ou outra
pessoa d bem) presente que, derramando água natural sobre a cabeça da criança
invoca o nome desta e acrescenta: “eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo”. Para padrinhos desse batismo são previamente indicados pelos
pais da criança duas pessoas, um homem e uma mulher. No fim da cerimónia do
batismo, a animação continua até, à meia noite, altura em que os “fetiserus”
[as bruxas] se recohem às suas casas e, consequentemente, a criança de correr o
risco de ser “comida”. Nessa altura, as pessoas presentes regressam às suas
casas para o merecido descanso a que não são alheios o recém-nascido e os pais
deste. (Silva, 1998, pp. 162-163)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;De
notar que toda a animação na casa da festa de &lt;i&gt;guarda-kabésa, &lt;/i&gt;até a meia noite visava criar um clima que afugentasse e desencorajasse qualquer
intento orquestrado pela bruxa&amp;nbsp;querendo&amp;nbsp;se aproximar do recém nascido. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;O batismo administrado nessas
circunstâncias só tem validade, no caso de a criança vir a morrer, antes de ser
levada à igreja para a ser de novo batizada e, desta vez, por quem de direito. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo8.JPG&quot;&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Com base nas informações disponíveis em
uma monografia que orientamos aquando da realização de um curso
de formação de professores e delimitada ao estudo do tema festa de &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;guarda-kabésa&lt;/i&gt; na Ribeira Grande, Santo
Antão (Medina, 2003), informamos que nesta localidade o ritual de proteção do
recém-nascido iniciava-se bem antes do sexto para o sétimo dia. Praticamente começava desde
o primeiro dia da vinda do neófito para mundo, porque em muitos casos,
coincidia que a bruxa era a própria parteira, o que facilitava, em grande medida, o seu acesso ao neófito, porque ela é que, segundo a tradição tinha de a banhar
nas primeiras semanas de vida. E como parteira, conhecia quase todos os cantos da cas dos pais do menino ou menina. Para evitar que a bruxa “comesse” o recém nascido, havia todo um
trabalho feito, geralmente, por pessoas experientes, mais concretamente as avós
(maternas ou paternos), que faziam de tudo para protege-lo, desde a utilização
de plantas protetoras dos males causados pela bruxa (contra bruxa, mostarda,
etc.) à utilização de roupas femininas interiores e muito conspurcadas que, a
volta do seu corpo, eram colocados. Como garante o próprio autor dessa
monografia, &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Todos
os cuidados eram redobrados na noite do sétimo dia, pois nela definia-se a
continuidade da vida da criança ou senão era comida pelas bruxas. A preferência
das bruxas era maior se tratasse de uma criança do sexo masculino, pois elas
tinham um “sebo” que facilitava as bruxas nas suas artes de voo. Assim, toda a
família, os vizinhos e amigos da família trabalhavam em conjunto no sentido de
envidar os esforços para poderem salvar a criança do perigoso ataque das bruxas
ao sétimo dia após o nascimento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Neste
âmbito cavavam-se alguns buracos em redor da casa onde eram colocadas pequenas
porções de sal, mostarda e enxofre misturados. Também uma parte desses produtos
era arremessada para cima da casa em forma cruzada. Também no seu interior era
geralmente feito o mesmo. Em cima da cama do recém-nascido eram colocadas
facas, tesouras, e outros objectos de metal principalmente o aço, sabendo que
os mesmos impediam as bruxas de chegarem perto da criança. Ela era envolvida em
roupas “intimas” da mãe, e sobretudo escolhia-se as peças mais sujas. A própria
urina era armazenada em objectos aproximadamente dois dias antes do sétimo dia
e colocada por baixo da cama ou ainda espalhada &lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;à&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt; volta da casa.&amp;nbsp; Segundo consta, as bruxas gostam mais das
crianças que estão bem limpas e bem cheirosas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;Durante
essa noite elas eram afugentadas variadíssimas vezes recorrendo ao seguinte
esconjuro: &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;“figa canhota berdolega, mar
de Espanha e bô tem oi mau. Bê pe pregue d’mar vermei...”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;. Este era feito
como forma de afastar a criança dos proeminentes perigos. (Medina, 2003, pp.
29-30)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-secondary&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 636px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Diapositivo6.JPG&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;O
rigor no ‘guarda cabeça’, deve ser tanto mais redobrado, quando a criança nasce
‘beteóde’. Esta nasce envolvida numa sarraia e logo que cortado o umbigo, a parteira retira-a do invólucro. Distingue-se perfeitamente do menino normal,
pois o beteóde, mal sai da sarraia, momentaneamente trepa a parede do quarto
onde nasceu, seguindo rumo ao tecto; porém nunca se deve impedí-lo desse
trajecto, não vá o menino atrapalhar-se e ficar ‘nocente’ por toda a vida.
(Fernandes, 1998, p. 21)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Essa
noite de &#039;guarda cabeça&#039; também tinha um outro interesse. Com o objetivo de manter as pessoas
acordadas e de vigília, era organizado uma festa com todos os elementos da
família e amigos. Era preciso fazer muito barulho de forma a afugentar as bruxas
e manter acordado os participantes nesse ritual. Para isso nada melhor do que
degustar comes e bebes, fazer tocatinas e lançar-se ao baile até o romper do
dia.&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Todas
essas cerimónias e divertimentos eram necessários para a defesa do
recém-nascido, pois segundo a crença popular se não os fizessem, em muitos
casos, a sua vida não passaria do sétimo dia. Daí a urgente necessidade de
protegê-lo nessa fase crucial da sua existência.&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight:normal&quot;&gt;Bibliografias e Referências &lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Barros,
A. (1961). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;África. Cabo Verde: o que se
viu, o que se disse, o que se cismou, de 1952 para cá&lt;/i&gt;. Lisboa: António
Barros. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Cabot, L.; Cowan, T. (1992). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;O poder da bruxa: a terra, a lua e o caminho
mágico feminino&lt;/i&gt;. Rio de Janeiro: Campus. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Carvalho, M. A. S. (2004). &lt;i&gt;O Objecto e a Escrita.&lt;/i&gt; Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do LIvro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Dias, P. (2006). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Gentes das Ilhas: 61 “estórias” enquanto
sono não vinha&lt;/i&gt;. Praia: CV Telecom. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Fernandes, M. P. R. M. (1998). &lt;i&gt;Os contos da Paula&lt;/i&gt;. Mindelo: Gráfica do
Mindelo.&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Manzanares,
C. V. (s.d.). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Dicionário de Seitas e
Ocultismo&lt;/i&gt;. Coimbra: Verbo Divino. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Medina, J. N. L.
(2003). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;A Festa de Guarda-cabeça na
Ribeira Grande – uma contribuição para o seu estudo&lt;/i&gt;. Praia: ISE. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Morin,
E. (2003). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;A cabeça bem-feita: repensar a
reforma, reformar o pensamento&lt;/i&gt;. Rio de Janeiro: Bertrand.&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Pesavento, S. J.
(s.d.). &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;História &amp;amp; História C&lt;/i&gt;ultural.
Acedido online em: &lt;/span&gt;&lt;a href=&quot;https://www.passeidireto.com/arquivo/6688920/pesavento-sandra-jatahy-historia--historia-cultural&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;u&gt;ttps://www.passeidireto.com/arquivo/6688920/pesavento-sandra-jatahy-historia--historia-cultural&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt; - Data de acesso: 24-03-2016.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Rocha,
A. (1990). &lt;i&gt;Subsídios para a História da Ilha de Santo Antão (1462/1983).&lt;/i&gt;
Praia: Imprensa Nacional de Cabo Verde.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Silva, T. V. (1988).
«Crenças e religiões». In: &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;Descoberta das
Ilhas de Cabo Verde&lt;/i&gt;. AAVV. Parte II / Tema 3. Praia: Arquivo Histórico
Nacional (Cabo Verde). pp. 153-175.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight:normal&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Notas de fim&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br clear=&quot;all&quot;&gt;

&lt;/p&gt;&lt;hr width=&quot;33%&quot; size=&quot;1&quot; align=&quot;left&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style=&quot;mso-element:endnote-list&quot;&gt;



&lt;div style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;&lt;a name=&quot;_edn1&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:&amp;#10;edn1&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref1&quot;&gt;&lt;sup&gt;&lt;sup&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;[i]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/sup&gt;&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; Expressões em
Latim, que traduziremos, para a língua portuguesa em momento oportuno, na
altura da abordagem da &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;festa do miron&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;
(Divino Espírito Santo). Esta foi uma forma cingela que encontramos para homenagear
&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Nho Bintin &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;pelos seus &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Apontamentos manuscritos sobre a Novena do
Divino Espírito Santo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;, um espólio documental gentilmente facultado pelo
malogrado filho (&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Manuel Bintin&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;). &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Nho Bintin&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; foi um dos promotores da
festa do miron na ilha (Vila Ribeira Grande, Tarrafal, Capela de São Miguel,
Irmandade da Costa Leste. Morreram, mas ficou connosco a obra. E mais adiante
falaremos dela, na altura da abordagem dessa festa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_edn2&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:&amp;#10;edn2&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref2&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;[ii]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; Como narrou Paulino Dias (2006, p. 29), autor
supramencionado, em sua estória de Nhá Josefa, a propósito da visualização
desse sinal físico (rabu da bruxa) &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;“Manél
de Jóna Chica, entre um grogue e outro, ter visto o rabo de Nhá Josefa entrando
pela pequena janela do sobrado, num dia de madrugada quando ia a caminho
trapiche de Jôn d’Canda, e que só escapou de ser comido vivo porque sacou
rapidamente uma mãozada de sal que traz sempre no bolso!”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot; style=&quot;color: undefined&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_edn3&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:&amp;#10;edn3&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref3&quot;&gt;&lt;sup&gt;&lt;sup&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;[iii]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/sup&gt;&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;&lt;sup&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/sup&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Kem tem sê m’nin gurdim… dél bonhe n’urina tchôk, oh
séb, oh séb, oh séb! &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Basta visionar o vídeo da peça &quot;Rabo da Bruxa&quot; do grupo teatral
Juventude em Marcha para perceber disso. E com essa cantiga de embalar a
criança e ao mesmo tempo esconjuro, as bruxas fugiam como o “diabo a correr da
cruz”.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div id=&quot;edn3&quot; style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_edn4&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:&amp;#10;edn4&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref4&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;[iv]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;
Não é só
Ribeira da Torre que tem a má fama de local de bruxas. Existem outros locais muito
mais famosos, por exemplo: Chã das Furnas, Corda, Garça… Ribeira de Janela, a
mais conhecida, através da nossa música. basta ouvir a morna &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;«Papá Juquin Paris»,&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; cantada e eternizada
pela nossa ‘Diva dos pés descalços’, Cesária Évora, cujas origens são de Santo
Antão. Soubemos, há bem pouco tempo que a Mãe dela era da Ribeira da Torre,
zona ‘&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Varginha’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;, o que nos orgulha
muito.&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_edn5&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:&amp;#10;edn5&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref5&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;[v]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;
Plantações
de caniço, como se diz na nossa ilha&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;
‘merada de cana de cariço’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;. Com esta planta daninha à agricultura, fazia-se
a cestaria e esteiraria (artesanato), mas também os principais amuletos contra
a bruxaria: ‘&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;slomon’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; (para lhes
afugentar no dia da festa de ‘&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;guarda-kabésa’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;)
e ‘&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;compóss’&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; (para lhes decepar o rabo
quando estiverem voando). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;/div&gt;&lt;p style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_edn6&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:&amp;#10;edn6&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref6&quot;&gt;&lt;sup&gt;&lt;sup&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;[vi]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/sup&gt;&lt;/sup&gt;&lt;/a&gt;&lt;sup&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/sup&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Pela biografia
de Agostinho Rocha, crê-se que este curandeiro tenha existido no vale da
Ribeira Grande, Santo Antão, onde ele é natural e viveu a sua infância ouvido
estórias da boca dos mais antigos. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;



&lt;/div&gt;

&lt;br&gt;</description>
            </item>
                    <item>
                <title>OUTROS TRILHOS DE HISTÓRIA DA ILHA DE SANTO ANTÃO (II):  Festa de Batizado para &quot;conduzir a criança de uma mãe a outra&quot; e como motivo de receção de &quot;sonts oi&quot;.</title>
                <link>http://philosogogos.mozello.com/blog/params/post/998056/</link>
                <pubDate>Thu, 27 Oct 2016 09:29:00 +0000</pubDate>
                <description>&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;font color=&quot;#000000&quot;&gt;Há mais de uma década,
António Correia e Silva, auto definindo&amp;nbsp;como “um sociólogo seduzido pela
história”, ao ser entrevistado pelo jornalista José Vicente Lopes (2004, p.
205), quando questionado por esse grande profissional da comunicação social “se
os caboverdianos tratam bem a sua história”, sem titubear&amp;nbsp;e nem papas na língua,
responde que “Os caboverdianos não acarinharam muito a história que têem”. Fundamenta
Correia e Silva que essa falta de afeto dos cabo-verdianos para com a sua história
deve-se ao facto de o passado ser visto&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;… como algo a esquecer, na medida em que era um tempo
alienante. Era um tempo em que viviamos sobre o domínio do outro, havia uma
constante inibição da manifestação cultural, política, e social do
cabo-verdiano.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Em Cabo Verde, como em outros países recém independentes, o
encontro com a história não ocorre no exacto momento do dia da libertação. Há
um hiato. Só agora os cabo-verdianos começaram a pensar mais na história, até
porque começaram a dar-se conta que têm valores que precisam conhecer. Mesmo ao
nível de uma elite, que tem a responsabilidade de governar o país, começa-se a
perceber que só se pode transformar algo que conheça e que é preciso investir
no conhecimento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Investir no conhecimento histórico é, de certo, modo,
preparar-se para o desenvolvimento, porque o conhecimento&amp;nbsp;do passado é um
imperativo da transformação do futuro. Uma história que esclareça o país e
mostre as origens ou a lógica de detrminados constrangimentos ou
potencialidades. Aliás, este fenómeno tem sido, mais ou menos, universal, e
está na base do novo interesse pela história. (Lopes, 2004, pp. 205-206)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Baseando nas ideias expostas
no trecho que acabamos de transcrever, afirmamos que a nossa aposta no desenvolvimento
do projeto &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Outros Trilhos de História da
Ilha de Santo Antão&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt; através destes artigos «postados» no blog, é um meio
que encontramos para atingir um fim: investigar&amp;nbsp;sobre a nossa história no
domínio cultural para efeito de reconciliação com o passado. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Como dizem os mais
velhos, na vida «tudo tem o seu tempo e há um tempo para tudo». A propósito do
tempo para fazermos as coisas, pensamos que este é o tempo certo de&amp;nbsp;começarmos a dar o
nosso contributo pessoal, investindo no conhecimento da história da ilha que
nos viu nascer, visando a transformação do futuro. Para esse resultado,
escolhemos a cultura cabo-verdiana como &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Bildung &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;do historiador, mas delimitado às dinâmicas e aspetos culturais da ilha de Santo
Antão. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Com o nosso investimento
nesse domínio da história, pretendemos esclarecer as pessoas e mostrar-lhes outras
perspetivas e abordagens sobre a realidade da ilha de Santo Antão. Igualmente,
mostrar-lhes as nossas potencialidades no campo do &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Labor&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt; histórico e a nossa paixão pela história cultural, mesmo não tendo
formação académica de raiz e ou especializada em história.&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;font color=&quot;#000000&quot;&gt;O nosso trabalho
delimita-se ao campo da história da cultura cabo-verdiana, isto é, ao trama das dinâmicas e dos aspetos culturais locais&amp;nbsp;(ilha de
Santo Antão), porque pensamos que hoje, mais do que nunca, é necessário redefinir&amp;nbsp;a &lt;/font&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;… verdadeira dimensão do “Homem Cabo-verdiano” [a qual
requer] uma eficiente participação de todos [os ilhéus] na recolha de dados e na
reorganização da sua história a partir dos alicerces (raízes) unificadores do
coletivo (a Cultura Nacional), os únicos que facultam o conhecimento exato da
intercomunicação dos elementos constitutivos dessa realidade sociocultural. (Filho,
1983, p. 5 grifo nosso). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Com base no trecho que
acabamos de citar, declaramos que os temas cujo desenvolvimento temos agendado&amp;nbsp; ao longo da execução desse projeto - Outros Trilhos de História da Ilha de Santo Antão&amp;nbsp;-, é
uma forma que encontramos para “reorgnização da nossa história”, a partir das
“raízes unificadoras da cultura cabo-verdiana” (história cultural nacional), em particular os aspectos e dinâmicas culturais da ilha de Santo
Antão (história cultural, regional e local). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #120101&quot;&gt;Como notaram, em nosso primeiro artigo postado nesse blog, dando início ao desenvolvimento desse tema, fizemos abordagem
de alguns aspetos sobre a história regional (local) da ilha de Santo Antão,
tais como: descoberta e povoamento, formação social e miscigenação cultural e vida
quotidiana numa perspetiva dicotómica, isto é, entre o trabalho (rotina) e o
lazer (quebra da rotina). Também notaram, no término da redação desse artigo,
que fizemos referência à uma trilogia de festas que se dividem em: &lt;i&gt;celebrações festivas sazonais, cultos festivos e
festas aos patronos.&lt;/i&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Quanto às &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;celebrações
festivas sazonais, temos a dizer que elas são um tipo de festas que marcam as
grandes épocas da vida como o nascimento, o enlace e a morte e, como tal, são generalizadas
pelos batizados, casamentos e defunções&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_ednref1&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn1&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn1&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span style=&quot;color: #0066cc&quot;&gt;[i]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;font color=&quot;#000000&quot;&gt;. Estamos falando, concretamente, das suas celebrações segundo os rituais da religião católica
apostólica romana e da tradição cultural da ilha de Santo Antão!&lt;/font&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Através de alguns “dados
estatísticos não oficiais” que tivemos acesso a partir da consulta de duas “fontes
documentais escritas” (Albarello et al., 2005) asseguramos que estas celebrações
tiveram ocorrência com alguma regularidade nesta ilha entre os séculos XIX e
XX.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Segundo Ferrão (1898, p.
78), no ano de 1892, em toda a ilha de Santo Antão, foram realizados 574
batizados, 92 casamentos e 302 funerais. Por seu turno, Rocha (1990, pp. 98-107)
nos dá conta de que em 1983 foram realizados 1502&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;&amp;nbsp;
&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;batismos e 76 casamentos canónicos, mas com a particulridade de serem
desigualmente distribuídos pelas diferentes freguesias desta ilha (Nossa
Senhora do Livramento, Nossa Senhora do Rosário, Santo Crucifixo, São Pedro
Apóstolo, Santo António das Pombas, São João Batista e Santo André). Ainda
confirma esse autor (Rocha, 1990) que nesse ano faleceram 403 pessoas em toda
ilha, sendo os óbitos distribuídos por Concelho do seguinte modo: 152 na
Ribeira Grande, 57 no Paúl e 94 no Porto Novo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: rgb(0,0,0)&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 638px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/Estatisicas-1.jpg&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;As festas de batizado,
casamento e &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;finçon&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt; realizadas em
Santo Antão e igualmente no resto do país, gozam da particularidade de serem
todas manifestações culturais que requerem, não só, a execução de rituais religiosos
com “recurso ao sagrado” e, ao mesmo tempo, comportam momentos não religiosos,
favorecidos pela pândega, diversão e excessos de toda casta, que se traduzem
nos seus aspectos a-religiosos responsáveis pela definição da sua “essência
profana”. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Com base em Durkheim
(2002), afirmamos que a festa de batizado oscila entre dois pólos. De um lado a
cerimónia religiosa (manifestação do sagrado), de outro a comemoração festiva (manifestação
do profano). O primeiro pólo faz do&amp;nbsp;batismo uma forma exterior e regular de
culto, sendo este o seu momento religioso. E o segundo pólo, faz dele um ato festivo
com demonstração de alegria e regozijo, sendo esta&amp;nbsp;a parte laica do batizado. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Podemos classificar o
batizado como uma festa que comporta, simultaneamente, momentos sagrados e
profanos. Quanto a sua essência, diria Emile &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Durkheim (2002)
que é um misto de sagrado e profano. E um misto de sagrado e profano porque &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;…possui
certos caracteres da cerimónia religiosa, porque em todos os casos, tem por
efeito aproximar os indivíduos, pôr em movimento as massas e suscitar assim um
estado de efervescência, por vezes até de delírio, que não deixa de se aparentar
ao estado religioso. O homem é transportado para fora de si, distraído das suas
ocupações e preocupações habituais, por isso observamos, de um lado como do
outro, as mesmas manifestações: gritos, cânticos, música, movimentos violentos,
danças, busca de excitantes que elevam o nível vital, etc. Notou-se muitas
vezes que as festas populares levam a excessos, fazem perder de vista a
fronteira que separa o lícito do ilícito e, há igualmente cerimónias religiosas
que determinam como que uma necessidade a violação das regras mais respeitadas.
Não é que não haja motivo, sem dúvida, para distinguirmos as duas formas da
atividade pública, pois o simples regozijo, o &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;corrobori&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt; profano, não tem objeto sério, enquanto no seu conjunto,
uma cerimónia ritual possui sempre uma finalidade grave. Devemos, seja como
for, observar que talvez não haja manifestação de regozijo que não ecoe de
algum modo a seriedade da existência, no fundo, a diferença está sobretudo na
desigual proporção segundo a qual os dois elementos em causa se combinam. (Durkheim, 2002, pp. 389-390)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;span style=&quot;color: #0d0c0c&quot;&gt;Como se pode ver, o autor supramencionado considera o batizado uma festa&amp;nbsp;ambígua. Isto porque possui uma parte sagrada ou religiosa, o culto e outra parte profana ou a-religiosa que requer música, dança, momentos ilícitos e &quot;não sérios&quot;.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #0e0e0e&quot;&gt;Parafraseando Van Gennep citado em Filho (1997), classificamos o batismo, enquanto cerimónia religiosa implicando a socialização do indivíduo, como um &amp;nbsp;“rito de passagem”, isto é, uma forma peculiar de culto marcado por certas praxes que acompanham “simbolicamente qualquer mudança cronológica, de lugar ou condição social”. Acrescenta-se ainda, com base no autor que acabamos de citar, que o ritual do batismo pressupõe “uma mudança social, na qual se verifica uma alteração do estatuto de ateu para o de cristão, que […] permite pontuar o real e dotá-lo de um sentido” (pp. 41-42). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #0e0e0e&quot;&gt;No que concerne as festas de batizado em Santo Antão, Agostinho Rocha (1990) por seu turno diz que “eram e continuam a ser atrativos”. Na década de oitenta do século XX, caso não fora “a crise por estiagem e a percentagem de desempregados teria havido mais batismos”. Reitera ainda que as festas de batizado são uma excelente oportunidade de convívio e “revestem-se de muita vida e alegria” (Rocha, 1990, p. 49 e 99). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #0e0e0e&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Apresentacao1-1.jpg&quot;&gt;

&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: rgb(14,14,14)&quot;&gt;D&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;ita a&amp;nbsp;tradição cultural que no
batizado deve haver um padrinho e duas madrinhas. Porém, em certos casos, o inverso
é verdadeiro. E verdadeiro porque há&amp;nbsp;uma madrinha e dois padrinhos. Salienta-se 
que “a madrinha [ou o padrinho] de dentro […] acompanha o ministério do
baptismo, a verdadeira madrinha [ou o verdadeiro padrinho], e a madrinha de
porta da igreja [ou o padrinho da porta da igreja] […] que conduz a criança”
(Rocha, 1990, p. 49 grifos nossos). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #100202&quot;&gt;Quanto a origem desse
cerimonial religioso, temos a dizer que o batismo é uma instituição religiosa e
cultural&amp;nbsp;herdada dos brancos portugueses feitos deslocar das antigas regiões
da Metrópole onde residiam, para poderem dar início à exploração económica desta
colónia africana e acompanhados&amp;nbsp;dos missionários que também vieram para o arquipélago para efeito
de realização conversão e batismo (evangelização) dos escravos considerados pessoas indígenas e
não &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;color: #100202&quot;&gt;civilizadas&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #100202&quot;&gt; (vadios). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #160202&quot;&gt;Pelo que tudo indica, os
homens brancos e esses missionários portuguesas eram pessoas oriundas das
comunidades aldeãs das várias&amp;nbsp;regiões do interior de Portugal, onde o batismo
era celebrado antigamente conforme a tradição. Portanto, em tenra idade
da criança, isto é, nos “sete dias depois de nascida” (Santo, 1990, p. 170). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Este autor ainda expõe
algumas ideias sobre um aspeto simbólico-religioso muito interessante que se relaciona com o ritual
do batismo católico, o qual sugerimos aqui como um outro mote de leitura e análise dessa festa. Trata-se da “simbólica maternal” que suporta os seus rituais e que se
praticam com a finalidade de conduzir a criança “de uma mãe a outra” (Santo,
1990). É por isso que à esta cerímónia religiosa, toda criança tem de estar sujeito.&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;&amp;nbsp; Diz ele que &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;o batismo da criança &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Marca o momento em que a
comunidade […] depois dos sete dias probatórios, reconhece a existência do novo
indivíduo e o adota, atribuindo-lhe um nome […] Rejeitada do seio da mãe, a
criança é admitida no seio de uma mãe de substituição, uma vez que nem nessa
idade, nem em nenhum momento da sua vida, lhe é permitido viver sem uma segunda
mãe. Pelo batismo são-lhe mesmo atribuídas diversas mães: a igreja católica de
que o padre é o representante, a comunidade […] de que o cura é o «pai» e cujo
templo se chama matriz, e também uma mãe de adoção na pessoa da madrinha. O
recém nascido é introduzido no seio dessas novas mães por figuras paternas, o
padre e o padrinho. As fontes batismais são em forma de matriz e o oficiante
serve-lhe de uma concha autêntica, imagem perfeita do seio da mãe e elemento
marinho. Batizar é tocar ou mergulhar o neófito na água, ungi-lo com o elemento
amniótico para lhe dar consistência e regenerá-lo depois do traumatismo do
nascimento […] A cor do batismo é o branco, a cor do&amp;nbsp; leite, como acontece sempre que se adota uma
nova mãe ou se evoca a sua acção… (Santo, 1990, pp. 170-171 grifos meus)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-secondary&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/Apresentacao2.jpg&quot;&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Ainda destaca esse mesmo autor
que o ato do batismo católico possui uma função social. A realização desse cerimonial
implica que a criança seja &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;… adotada por duas outras famílias, a do padrinho e a da
madrinha, que a acolherão em caso de necessidade. O apadrinhamento é uma […]
instituição social que emana de um rito religioso mas se autonomiza em relação
à religião. Como o compadrio que lhe está ligado, tem por função alargar a
família e integrar os indivíduos não ligados pelos laços de sangue. Os laços
entre o padrinho e o afilhado são idênticos aos que unem pais e filhos, e criam
relações fraternais entre os diversos padrinhos/madrinhas (tornando-se entre si
compadres/comadres), além de criarem a obrigação de substituírem os pais
carnais&amp;nbsp; no caso destes morrerem antes da
criança chegar a idade adulta […] O padrinho e a madrinha dispõem de autoridade
sobre os afilhados, como se fossem seus filhos, e aqueles devem saudá-los,
quando os encontram pela primeira vez em cada dia, por uma fórmula ritual –
igual a usada pelos pais – que corresponde a um pedido de bênção&lt;/span&gt;&lt;a name=&quot;_ednref2&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn2&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn2&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #0066cc&quot;&gt;[ii]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;.
A ligação por apadrinhamento integra o padrinho e a madrinha numa rede muito
extensa de compadres/comadres que [unam-se] […] pelos laços da fraternidade: se
sou padrinho num batizado, torno-me compadre dos pais, dos avós, da madrinha e
do seu marido, da parteira (a vizinha que ajuda no parto) e do seu marido, dos
outros padrinhos e madrinhas futuras e dos seus cônjuges respetivos. (Santo,
1990, p. 171 grifos meus)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;O ato do batismo, segundo
Rocha (1990, p. 99) implica&amp;nbsp;“muita festa e para que haja festa tem de haver
comida e bebidas”. Tomando esta a condição da festa, o batizado pode ser classificado segundo
R. Caillois (1988, p. 96) como uma “festa alegre por definição” onde há muita
fartura porque comporta “princípios de pândega e excessos” que
se traduzem na “ingestão de comida e bebida”. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Além de participar nessa
parte da festa os compadrinhos (atores), também participam os vizinhos, conhecidos
e convidados (espetadores) que, solicitados pelos pais da criança ou pelos
padrinhos, se juntam para festejar, recebendo os&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt; Santos óleos&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;a name=&quot;_ednref3&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn3&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn3&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span style=&quot;color: #0066cc&quot;&gt;[iii]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;, seguido
de &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;festa rijo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;. Outrora, essa festa
era ambientada com&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;bailes ao som do violino, viola,
violão, &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;viola e bic&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt; e dançava-se contradança,
mazurca, galope, &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;chotice&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;, valsa, &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;pas-de-quatre&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;, vira e &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;landum&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;. Eram bons tempos!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Referências Bibliográficas &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Albarello, L. et al. (2005). &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Práticas e Métodos de Investigação em Ciências Sociais&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;. Lisboa:
Gradiva.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Caillois, R. (1988). &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;O
Homem e o Sagrado&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;. Lisboa: Edições 70.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Durkheim, É. (2002). &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:
normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;As Formas Elementares da Vida Religiosa&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;. Oeiras: Celta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Ferrão, C. R. (1898). &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Estudos
Sobre a Ilha de Santo Antão&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;. Lisboa: Imprensa Nacional.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Filho, J. L. (1983). &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Por
Uma Política Cultural&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Ponto &amp;amp; Vírgula&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;, 2.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Filho, J. L. (1997). &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;O Corpo e o Pão - O Vestuário e o
Regime Alimentar Cabo-verdianos.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt; Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Lopes, J. V. (2004). &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;A
explicação do mundo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;. Praia: Spleen.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Rocha, A. (1990).&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;
Subsídios para a História da Ilha de Santo Antão (1462/1983&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;). Praia:
Imprensa Nacional de Cabo Verde.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;Santo, M. E. (1990). &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;A
Religião Popular Portuguesa&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;. Lisboa: Assírio &amp;amp; Alvim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: #000000&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;div style=&quot;mso-element:endnote-list&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: #1a18d2&quot;&gt;&lt;b&gt;Notas de fim&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br clear=&quot;all&quot;&gt;

&lt;hr width=&quot;33%&quot; size=&quot;1&quot; align=&quot;left&quot;&gt;



&lt;div id=&quot;edn1&quot; style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;a name=&quot;_edn1&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:
edn1&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref1&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #0066cc&quot;&gt;[i]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt; Festas tristes por definição e que
em Santo Antão costuma-se chamar &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;finçon&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;.
&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;/div&gt;

&lt;div id=&quot;edn2&quot; style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;a name=&quot;_edn2&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:
edn2&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref2&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #0066cc&quot;&gt;[ii]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt; Antigamente pelo Natal ou Fim de
Ano os afilhados iam à casa padrinhos e madrinhas tomar bênção. Levavam encomendas
e traziam prendas ou dinheiro oferecidos pelos padrinhos e madrinhas. Era um
dia de muita alegria, liberdade e aguardado com bastante expetativa.&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;/div&gt;

&lt;div id=&quot;edn3&quot; style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;a name=&quot;_edn3&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:
edn3&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref3&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #0066cc&quot;&gt;[iii]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt; Em crioulo típico de Santo Antão
diz-se &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt;“Sontes oi”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot; style=&quot;color: #000000&quot;&gt; que significa
comerem e beberem a sua parte da festa. Ao fim ao cabo, trata-se de uma patuscada
de comes e bebes (pândega). &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;/div&gt;

&lt;/div&gt;

&lt;br&gt;</description>
            </item>
                    <item>
                <title>OUTROS TRILHOS DE HISTÓRIA DA ILHA DE SANTO ANTÃO (I): Preâmbulo</title>
                <link>http://philosogogos.mozello.com/blog/params/post/993736/outros-trilhos-de-historia-da-ilha-de-santo-antao-i</link>
                <pubDate>Sun, 23 Oct 2016 07:32:00 +0000</pubDate>
                <description>&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Como já tivemos oportunidade de afirmar,&amp;nbsp;um dos principais objetivos do uso desta &quot;ferramenta web 2.0&quot; é divulgar&amp;nbsp;trabalhos de pesquisa e reflexões pessoais (artigos) sobre&amp;nbsp;temas&amp;nbsp;das diferentes áreas disciplinares das ciências sociais e humanas, mais concretamente, história, filosofia e pedagogia ou ciências da educação.&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Com relação a estas três áreas do saber, é na última, isto é, na história, onde enquadramos todos os artigos que pretendemos produzir no âmbito do longo desenvolvimento dos vários temas&amp;nbsp; integrados num primeiro projeto de investigação sem formalidades académicas, que se designará doravante por&lt;i&gt; «Outros&amp;nbsp;Trilhos de&amp;nbsp;História da Ilha de Santo Antão».&lt;/i&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Mas, os&amp;nbsp;outros trilhos de história
da ilha de santo Antão que pretendemos percorrer, são o reverso daquilo que J. Alvares Pereira
(1988),&amp;nbsp;um investigador autodidata português sobre questões de história local e regional
portuguesa, ousou denominar por “história dos grandes feitos que todos contam” (p.
29). &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Contrariamente a esta tendência
da história, o nosso trabalho histórico vai de encontro a uma outra tendência.&amp;nbsp;A tendência que faz da história um estudo dos pequenos
feitos contados por uns poucos.&amp;nbsp;Trata-se de uma história sobre os pequenos lugares, tendo a cultura como campo de estudo. Daí o seu enquadramento no campo da &quot;história cultural&quot;.&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;História cultural é&amp;nbsp;um&amp;nbsp;novo caminho&amp;nbsp;da história por onde queremos passar, traçando, assim, um novo rumo à história, um rumo que segundo a
autora brasileira S. J. Pesavento (s.d., p. 66) nos permite explorar como&amp;nbsp;“temas e objetos&quot; elementos simbólicos como &quot; ritos e festas, mitos e crenças, sociabilidades e atitudes
mentais ou mesmo a incorporação da história material pela cultura, ou ainda o
ingresso […] no campo das identidades”. Acrescentaríamos ainda, com base em M. Rubin (2006), que trata-se de uma nova maneira&amp;nbsp;de fazer história. Afirmaria este autor que se trata de&amp;nbsp;&quot;uma história que deve tocar as&amp;nbsp;massas e não as elites&quot; e com a qual o historiador (seja ele amador ou profissional!) explora &quot;as suas fontes ricas&quot; e encontra &quot;corpos: envolvidos em atividades lúdicas e rituais, rezando, trabalhando, sofrendo&quot; (pp. 113-115). &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Como se pode ver, nestes dois autores&amp;nbsp;supramencionados (J. Pesavento, s.d. &amp;amp; M. Rubin, 2006) estão as
bases epistémicas&amp;nbsp;que nos permitem suportar cientificamente esse&amp;nbsp;estudo.
Trata-se de um estudo sobre vários aspetos da história cultural da ilha de Santo Antão, que percorrendo
os seus diferentes trilhos tentaremos contar sobre feitos e realizações como:
sua descoberta e povoamento; formação social e miscegenação cultural; vida quotidiana (trabalho e lazer); crenças,
ritos e mitos locais&amp;nbsp;(regionais); festas e outras manifestações do folclore típico da ilha, tendendo sempre a retratar a vivência&amp;nbsp;do povo
em um tempo&amp;nbsp;recuado, mas não muito distante - séculos&amp;nbsp;XVIII-XX.&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Sem mais
delongas, começamos por dizer que&amp;nbsp;Santo Antão
é uma ilha do Arquipélago de Cabo Verde perdida no Atlântico e,
geograficamente, é a mais próxima da Europa, de onde lhe veio uma boa parte da
sua cultura, com alguns vestígios da África, trazidos pelos escravos que a ela
aportaram aquando do seu povoamento e volvido uns tempos depois da sua descoberta
(achamento).&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 638px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/Cabo_Verde_1861.jpg?1482872327&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem 1 -&amp;nbsp;&lt;i&gt;Mapa da Província do Insular de Cabo&amp;nbsp;Verde conforme as descrições de Lopes de Lima (1844)&lt;/i&gt;, posteriormente corrigido e publicado por Cha. Wilson em Londres no ano de 1861 e no mesmo ano em Lisboa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Com relação a data do seu
achamento, António J. Maurício (2015) em sua monografia sobre a História da
Vila da Ribeira Grande de Santo Antão num período compreendido entre 1732-1975,
escreve que, embora seja difícil situar com precisão a data da descoberta das
ilhas do arquipélago de Cabo Verde,&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;

&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;… pode admitir-se, de acordo com os documentos oficiais [cf.
Carta régia de 3 de Dezembro de 1640, in Vitorino Magalhães Godinho, Vol. III,
Lisboa, 1956, p. 276-278], que teve lugar entre os anos 1460 e 1462.

A ilha de Santo Antão, só se encontra mencionada na carta
Régia de 19 de Setembro de 1462 [cf. Vitorino Magalhães Godinho, Vol. III,
Lisboa, 1956, p. 279-281], juntamente com as ilhas de S. Vicente, S. Nicolau,
S. Luzia, e Brava. Se considerarmos os topónimos destas ilhas e as datas do
calendário religioso que coincide com o nome de “Santos” (São Nicolau, 6 de
Dezembro; Santa Luzia, 13 de Dezembro; Santo Antão, 17 de Janeiro, São Vicente,
22 de Janeiro) pode-se concluir que elas firam descobertas entre Dezembro de
1461 e Janeiro de 1462. A celebração do dia do Padroeiro da ilha a 17 de
Janeiro, confirma a data do seu achamento, referenciado pela tradição oral.

Depois da descoberta, a ilha foi aproveitada para a criação
de gado e […] [à ela] se deslocavam para preparação dos sebos e peles que eram
exportados pela metrópole. (Maurício, 2015, pp. 12-13 grifos nossos)&lt;/span&gt;
&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 638px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/SA_900-1.jpg?1483649870&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem 2 - &lt;i&gt;Carta da Ilha de Santo Antão, 1887&lt;/i&gt;. &lt;u&gt;Fonte&lt;/u&gt;:&amp;nbsp;Medina, G. A. (2013). &lt;i&gt;A Ilha de Santo Antão (Cabo verde) através dos mapas da Comissão de Cartografia (1883-1932)&lt;/i&gt;. &amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;
&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Sobre o povoamento
desta ilha, Rocha (1990, p. 125) afirma que este não se processou imediatamente
a sua descoberta, devido a “dificuldade de penetração” e a inacessibilidade das
suas “rochas cortadas a pique” junto ao “mar de ondas imponentes” e por falta
de “caminhos de penetração”.&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Pelo que foi possível
constatar através da consulta de algumas fontes documentais escritas, o
povoamento da ilha foi tardio, sendo difícil indicar com exatidão a data em que
se iniciou. Há, portanto, uma imprecisão nas datas, bem visível nas declarações
de alguns autores, todos naturais desta ilha.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Entre eles, Agostinho
Rocha (1990) um empírico investigador sobre a história local (regional)
de Santo Antão, garante em suas memórias históricas sobre Santo Antão, que “O
povoamento da ilha foi iniciado em 1462” (p. 14). &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Uma outra investigadora,
historiadora de formação e como tal detentora de maior crédito científico nesta
área (Ferro, 1998), tomando como referência o Pe. António Brásio, surge
afirmando em sua citação que “na primeira década de 1600 a ilha era ainda
despovoada e que nela não havia mais do que gado” (p. 19). Além disso adianta a
própria autora que Santo Antão “ainda em 1610 era despovoada” confirmando
igualmente que “devemos concluir que a sua colonização só se iniciou depois de
quase um século e meio” a sua descoberta em 17 de Janeiro de 1462. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A nossa última fonte, António
J. Maurício (2015), que fazendo uso das suas valências científicas em matéria de
investigação, na área de história local (regional) da ilha de Santo Antão, parte
dos acervos documentais deixados por notáveis estudiosos e investigadores sobre
a História de Cabo Verde (O. Ribeiro, 1995; S. Barcelos, 2003; A. Brásio, 1958)
para situar o povoamento desta ilha “entre os finais do século XVI e início do
século XVII” (p. 13).&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Admitindo&amp;nbsp;que o povoamento
de Santo Antão tenha-se começado quase um século e meio após a sua descoberta, mais
precisamente nos finais do século XVI e início do século XVII, podemos
acrescentar que este processo foi iniciado, nos primeiros tempos, a partir da Povoação de Santa Cruz, posteriormente elevada a categoria de vila em 1732 - Vila da Ribeira Grande. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img style=&quot;width: 638px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/04-Povoacao02-1.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;3 - &lt;i&gt;Vista da Povoação da Ribeira Grande na ilha de Santo&lt;/i&gt; &lt;i&gt;Antão (1864, aprox.)&lt;/i&gt;. &amp;nbsp;&lt;u&gt;Fonte&lt;/u&gt;:&amp;nbsp;Medina, G. A. (2013). &lt;i&gt;A Ilha de santo Antão (Cabo verde) através dos mapas da Comissão de Cartografia (1883-1932)&lt;/i&gt;.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;O&amp;nbsp;processo de povoamento efetuou-se com brancos europeus e escravos afro-negros. E na confirmação disto, Ferro (1998) historiadora
já mencionada, diz que a ilha de Santo Antão &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;… foi primeiramente povoada por algarvios [sendo estes os
primeiros colonos portugueses que fixaram residência nesta ilha] e africanos
vindos de Santiago, a que se juntaram ilhéus, madeirenses e açorianos [mas isto
dá-se no século XIX] [&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;sic&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;],
espanhóis, judeus, norte-americanos, italianos e […] [ingleses e franceses, raças
chegadas à ilha depois dos primeiros colonos, devido a benignidade do seu clima
com relação às outras ilhas irmãs do arquipélago]” (Ferro, 1998, p. 20 grifos nossos).
&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A propósito dos primeiros colonos
portugueses, além dos algarvios, também temos os alentejanos e minhotos que,
segundo Agostinho Rocha (1990, p. 14) “foram enviados” da metrópole para a ilha
de Santo Antão a fim de procederem a exploração da “agricultura”. Mas, tendo eles
deparado com a escassez de mão-de-obra na ilha, tiveram de importar da ilha de
Santiago escravos já ladinizados ou mesmo libertos para trabalharem nessa
atividade. Do cruzamento entre os indivíduos dessas diferentes raças formou-se
o crioulo mestiço, habitante típico da ilha de Santo Antão. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Por aquilo que acabamos de dizer, reconhece-se,
sem motivos para quaisquer ceticismos, que a miscigenação social e cultural é um dos
principais aspetos que marca a história&amp;nbsp;cultural da ilha Santo Antão.
Isto porque o povoamento da ilha fez-se com gentes de
várias proveniências do globo, isto é, portugueses, espanhóis,
italianos, franceses, ingleses, norte-americanos,&amp;nbsp;judeus ou cristãos novos e
afro-negros ou escravos. E das relações entre os indivíduos dessas diferentes
raças nasceu uma sociedade autónoma, diferente da das outras irmãs, nas tradições culturais, costumes e festas que caracterizam
especificamente o povo desta ilha. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Passando agora para o tópico seguinte deste artigo - vida quotidiana entre o trabalho e o lazer -, temos a dizer que na vida do dia-a-dia percebemos o tempo
como uma sucessão temporal entre&amp;nbsp;trabalho e festa (lazer) e, neste suceder, uma diferenciação e
mudança de atitude das pessoas entre um&amp;nbsp;
tempo e o outro. No tempo de trabalho, uma postura e uma atitude séria,
um pouco artificiais. No tempo de festa, uma postura e uma atitude lúdica,
alegre, desarmada criativa, natural e espontânea.&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A regulamentação do tempo é algo natural.
Tiramos da sabedoria popular o que nos mostra a sua natureza. Existem vários e
diferentes tempos, isto é, tempo de plantar, tempo de colher, tempo de
celebrar, etc. Igualmente o calendário estabelece e sinaliza o tempo de festa,
de descanso, de trabalho e os dias obrigatórios de suspensão do trabalho.&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/05-Trabalho__trapiche_.jpg?1482850667&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem 4 - &lt;i&gt;Homens e bois no trabalho de trapiche&lt;/i&gt;. Fonte: Lima, A. L. et al. (s.d.). &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Domila’99 – Homenagem a João Francisco Lima&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;. S.L.: Rosariense / Ministério da Cultura. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;No Arquipélago de Cabo Verde, a propósito
de um dos aspetos do tempo de trabalho, houve uma época em que &quot;fez escola&quot; o tão
propalado “mito da indolência cabo-verdiana”, um assunto que foi variadíssimas
vezes trazido à baila das discussões pelos intelectuais, mas que a partir da década
de sessenta do século XX (1960) ficou totalmente desfeito&lt;a name=&quot;_ednref1&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:&amp;#10;edn1&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn1&quot;&gt;&lt;u&gt;[i]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;
Na origem&amp;nbsp;desse mito está a pressão exercida pelos colonos sobre os escravos no cumprimento da &quot;rotina do&amp;nbsp;trabalho instituído&quot; e que consideravam negativas certas posturas
vindas das práticas espontâneas dos afro-negros&amp;nbsp;agregados em tempo de festa, com
a justificativa de que essas&amp;nbsp;práticas podiam prejudicar a produtividade e favorecer a indolência, a lasciva, a devassidão. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Desfazendo esse&amp;nbsp;mito, convém
dizer que desde a alvorada dos tempos, na ilha de Santo Antão, sobretudo, a contar
a partir do início do seu povoamento, a vida no dia-a-dia quase resumia-se ao
 trabalho e não havia&amp;nbsp;&quot;tempo sequer para&amp;nbsp;&quot;esfregar nos olhos&quot;. Pois,&amp;nbsp;nega isto a ideia de que o santantonense, tal como qualquer outro insular do arquipélago é indolente (pessoa que não gosta de trabalhar) e muito festeiro. Desde essa altura, o
tempo de trabalho dos cabo-verdianos, sobretudo dos santantonenses, é investido, sobretudo, no trabalho do campo, na prática da agricultura ou&amp;nbsp;da pesca.
Sobre isto, Nogueira Ferrão
(1898), autor supramencionado, diz que o povo de Santo Antão é &quot;dotado ao trabalho e à operosidade&quot;. Atesta que&amp;nbsp; no tempo de trabalho os homens desta ilha &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;… occupam-se na cultura das terras […] e na vida do mar; as mulheres […] transportam carga, e numa pequena parte do anno ajudam os homens nos serviços das colheitas e sementeiras, além dos serviços domésticos próprios do sexo. (&lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;sic&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt; Ferrão, 1898, p. 29 grifos nossos)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;img style=&quot;width: 638px;&quot; src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/Carregar-1.jpg?1483650070&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem 5 - &lt;i&gt;Mulher transportando carga à cabeça, ajudando os homens na colheita da cana de açúcar. &lt;/i&gt;Pormenor de uma foto acedido online em: http://nosgenti.com/?p=947&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Antigamente havia mais trabalho
porque as chuvas eram mais frequentes e regulares e os terrenos fertilíssimos.
Assim a vida decorria normalmente na ilha labutando nos vales e nos campos; nos
trapiches, nas meradas, na apanha do café, nas culturas alimentares, na recolha
da urzela e da purgueira, na colheita dos frutos. Era essa a vida regular que povo
desta ilha levava. Uma vida laboriosa, cujo tempo ocupado no trabalho, sujeita a
um sistema de interditos e cheia de (pre)ocupações em que a máxima latina &lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;quieta non movere&lt;/i&gt;&lt;a name=&quot;_ednref2&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:&amp;#10;edn2&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_edn2&quot;&gt;&lt;u&gt;[ii]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt; era&amp;nbsp;a ordem do mundo, um mundo onde&amp;nbsp;vivia o povo desta ilha, tranquilo,&amp;nbsp;sem muitos alvoroços.&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/BocadaPistola-1.jpg?1483650397&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;6 - Pormenor do &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Cais
da Ponta do Sol (Boca de Pistola), &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;onde se pode identificar provas materiais de que os homens de Santo Antão também se ocupam da vida ao mar&lt;/span&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;. &lt;/span&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Fonte&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;: http://www.rutas-turisticas.com&lt;/span&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Contudo, em certos momentos a vida do
povo de Santo Antão deixava de ser tranquila e tornava-se muito&amp;nbsp;agitada,
divertida, alegre e cheio de fulgor. Tudo isto graças aos diversos tipos de festas realizadas
na ilha, nas quais integramos não só os tradicionais folguedos mas também todas
as manifestações culturais que enformam o ciclo ritual das festas tradicionais
desta ilha. Estamos nos referindo ao tempo marcado pela celebração das&amp;nbsp;festas de batizado,
casamento, defunção, culto festivo, romaria e/ou festa ao patrono. Portanto,
esse tempo representa uma rutura com a&amp;nbsp;s rotinas do quotidiano cingida à sucessão&amp;nbsp;das horas de trabalho nas diferentes localidades e/ou lugarejos da ilha. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;img src=&quot;//site-424200.mozfiles.com/files/424200/medium/06-Festa__tradicional_folguedo__boi_de_viola_e_bic_.jpg&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Imagem&amp;nbsp;7 - &lt;i&gt;Folguedo na Vila da Ribeira Grande, Santo Antão&lt;/i&gt;. Fonte: Lima, A. L. et al. (s.d.). &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;Domila’99 – Homenagem a João Francisco Lima&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-tiny&quot;&gt;. S.L.: Rosariense / Ministério da Cultura. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Assim sendo, se olharmos,&amp;nbsp;retrospetivamente, para a história
cultural da ilha de Santo Antão de acordo com os nossos registos de &quot;história e memória&quot;, estes nos revelam o povo desta ilha aproveitando, em tempos idos, os dias de folga da&amp;nbsp;labuta no campo para
aliviarem a tensão dos seus “músculos cansados e os corpos cheios de suor” rentados pelo
trabalho da lavra, fazendo recurso ao lazer, através de festejos. Este fato é assinalado&amp;nbsp;por Agostinho Rocha
(1990) quando diz que, &quot;em seus tradicionais folguedos&quot;, os
habitantes desta ilha&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-important&quot;&gt;divertiam-se
muito […] e assim faziam os bailes nacionais, com violino, viola, violão e
cavaquinho, e nos lugares mais pobres faziam os bailes de «bico» e viola, isto
é, cantados para a viola executar; dançavam a contradança, a mazurca, o galope,
o chotice, a valsa, o «pas-de-quatre», a vira, o tango e o landum. (Rocha,
1990, p. 50 grifo nosso)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Ainda no que concerne ao lazer, importa ressaltar
outras comemorações que também marcam local e culturalmente a ilha e que abrangem todas
as manifestações do seu ciclo ritual das festas tradicionais típicas. Diferentes tipos de festas que, segundo o sociólogo da cultura Albini Luchini (s.d., p. 228) podem, em teoria, ser
decompostas numa trilogia: 1) &lt;i&gt;Celebrações festivas sazonais&lt;/i&gt;; 2) &lt;i&gt;Cultos festivos&lt;/i&gt;; 3) &lt;i&gt;Festas
aos patronos&lt;/i&gt;. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Pois, abordaremos essas diferentes categorias de festas nos próximos
artigos ainda enquadrados na apresentação e discussão dos temas do nosso projeto &quot;Outros Trilhos de História da Ilha de Santo Antão&quot;.&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;br&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b style=&quot;mso-bidi-font-weight:normal&quot;&gt;Referências
bibliográficas&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Ferrão, C. R. (1898). &lt;i&gt;Estudos
Sobre a Ilha de Santo &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;i&gt;Antão&lt;/i&gt;. Lisboa: Imprensa Nacional.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Ferro, M. H. (1998). &lt;i&gt;Subsídios
para a História da Ilha de Santo Antão de Cabo Verde (1462-1900).&lt;/i&gt; Praia:
Inspituto de Promoção Cultural .&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;

Lessa,
A.; Ruffié J. (1960). &lt;i&gt;Seroantroplogia das
Ilhas de Cabo Verde Mesa-Redonda sobre o Homem Cabo-verdiano&lt;/i&gt;. Lisboa: Junta
de Investigações do Ultramar. &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Lima, A. L. et al. (s.d.). &lt;i&gt;Domila’99 – Homenagem a João Francisco Lima&lt;/i&gt;. S.L.:
Rosariense / Ministério da Cultura.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;

&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Luchini, A. (s.d.).«Ideologias,
Crenças Religiosas e Instituições». In: F. B. A. Akoun, &lt;i&gt;Enciclopédia
Sociológica Contemporânea - Volume II&lt;/i&gt;. Porto: Rés. (pp. 179-242).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;

&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Maurício, A. J. (2015). &lt;i&gt;Vila da
Ribeira Grande de Santo Antão (1732-1975): Percurso Histórico e Dinâmica
Administrativa&lt;/i&gt;. Mindelo: IUE - Escola de Formação de Professores do
Mindelo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;

&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Pereira, J. A. (1988). «História Local». In: &lt;i&gt;Água Mole – Revista de Cultura Popular&lt;/i&gt;.
Braga: Grupo de Professores da Escola Preparatória DR. Francisco Sanches. pp.
28-34. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;

&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Pesavento, S. J. (s.d.). &lt;i&gt;História &amp;amp; História Cultural&lt;/i&gt;. Acedido online em: &lt;/span&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&lt;a href=&quot;https://www.passeidireto.com/arquivo/6688920/pesavento-sandra-jatahy-historia--historia-cultural&quot;&gt;https://www.passeidireto.com/arquivo/6688920/pesavento-sandra-jatahy-historia--historia-cultural&lt;/a&gt;
- Data de acesso: 24-03-2016.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;

&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Rocha, A. (1990). &lt;i&gt;Subsídios para a
História da Ilha de Santo Antão (1462/1983)&lt;/i&gt;. Praia: Imprensa Nacional de
Cabo Verde.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;Rubin, M. (2006). «Que é a história cultural hoje?» In: D. Cannadine, &lt;i&gt;Que é a História Hoje?&lt;/i&gt;. Lisboa Gradiva. pp. 111-128. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;

&lt;br&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;span lang=&quot;PT-BR&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;b&gt;Notas de fim:&lt;/b&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;hr width=&quot;33%&quot; size=&quot;1&quot; align=&quot;left&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;a name=&quot;_edn1&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn1&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref1&quot;&gt;&lt;u&gt;[i]&lt;/u&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; Cf. Almerindo Lessa e Jacques Ruffié
(1960). &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Seroantroplogia das Ilhas de Cabo
Verde Mesa-Redonda sobre o Homem Cabo-verdiano&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;i style=&quot;mso-bidi-font-style:&amp;#10;normal&quot;&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;[Capítulo II, 4 – Segunda Reunião – Tema III: Indolência Cabo-verdiana,
pp. 131-138].&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt; Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style=&quot;mso-element:endnote-list&quot;&gt;&lt;div id=&quot;edn1&quot; style=&quot;mso-element:endnote&quot;&gt;&lt;p&gt;&lt;a name=&quot;_edn2&quot; title=&quot;&quot; style=&quot;mso-endnote-id:edn2&quot; href=&quot;http://philosogogos.mozello.com/m/blog-post/params/blog/8684324/action/add/return/1/#_ednref2&quot;&gt;&lt;u&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;[ii]&lt;/span&gt;&lt;/u&gt;&lt;/a&gt; &lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;Em português significa&amp;nbsp;&quot;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class=&quot;moze-small&quot;&gt;não agitar o que está sossegado”.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;



&lt;/div&gt;

&lt;br&gt;</description>
            </item>
                    <item>
                <title>UM APONTAMENTO</title>
                <link>http://philosogogos.mozello.com/blog/params/post/993621/page</link>
                <pubDate>Sun, 23 Oct 2016 00:42:00 +0000</pubDate>
                <description>&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;Olá C@ros Leitores!&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Hoje a internet nos permite editar e divulgar documentos em linguagem texto,
imagem e som, e de forma organizada, pô-los&amp;nbsp;à disposição do público. Podemos&amp;nbsp;publicar a partir de
soluções sofisticadas ou simples, como as ferramentas para construção de sites
pessoais (blogs), publicações voltadas especialmente para o público não especializado em certas matérias. Essa facilidade
torna a publicação &quot;online&quot; uma ação bastante difundida nos dias que seguem.&lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Cremos,&amp;nbsp;do ponto de vista da educação e cultura (saberes), que esta é uma oportunidade de
incrementação das habilidades de comunicação académica, tornando as pessoas produtores
e editores de conteúdos próprios e de terceiros. Com relação a atividade investigativa, publicar na internet é, para o docente, além
de tudo, uma forma de dar maior alcance aos produtos desenvolvidos, sejam&amp;nbsp;estes na e para a sala de aula,&amp;nbsp;como&amp;nbsp;também para além da sala de aula. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Hoje a&amp;nbsp;atividade de publicação&amp;nbsp;contribui&amp;nbsp;para a disseminação do conhecimento e difusão da cultura&amp;nbsp;num mundo que, cada vez mais prospetivo e globalizado, está&amp;nbsp;dependente das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e na superação das distâncias, usando as suas ferramentas.&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Tornar público as&amp;nbsp;pesquisas desenvolvidas pelos professores no
&quot;ciberespaço&quot; também permite, mesmo em contexto virtual, expressar diferentes realidades, reafirmar questões de identidade, ao mesmo tempo&amp;nbsp;que permite visualizar os contextos
localizados e globalizados que caracterizam a era atual. &lt;/p&gt;

&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Mas, para assegurar a qualidade no uso educacional e cultural destes recursos, os
profesores têem de se orientar para a construção de um significado próprio da
sua atividade de publicação de conteúdos na web, entendendo-a como uma
oportunidade criativa e construtiva de interferir em uma rede de comunicação, de partilha, de troca de experiências e intersubjetividade na promoção do «saber-conhecer» e «saber-fazer», dois pilares importantes da educação e formação na era atual, como se diz, uma educação e formação ao longo da vida (ALV). &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Em traços gerais, eis, portanto, as razões que se justificam a&amp;nbsp;criação deste blog. Digamos, um canal de partilha de informações, onde pretendemos&amp;nbsp;editar e publicar trabalhos&amp;nbsp;nas linguagens texto,&amp;nbsp;imagem e som, abordando várias temáticas das&amp;nbsp;CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS, cujas&amp;nbsp;áreas&amp;nbsp;de investigação são: FILOSOFIA, PEDAGOGIA / EDUCAÇÃO, HISTÓRIA. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Pretende-se desenvolver três projetos de investigação, um para cada uma dessas áreas acima mencionadas: 1) História - &lt;b&gt;&lt;i&gt;&quot;Outros Trilhos de História da Ilha de Santo Antão&quot;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;; 2) Filosofia - &lt;b&gt;&lt;i&gt;&quot;Excursos do Meu Filosofar Telúrico&quot;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;; 3) Pedagogia ou Ciências da Educação - &lt;b&gt;&lt;i&gt;&quot;Escólios Pedagógicos e Outros Textos sobre a Educação&quot;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;A denominação &quot;&lt;i&gt;philosogogos&lt;/i&gt;&quot;, atribuída ao blog, as suas raízes etimológicas, provém de &quot;&lt;i&gt;philos-sophos&lt;/i&gt;&quot; (filósofo, amigo ou amante do saber); e&amp;nbsp;&lt;i&gt;paidagogos&lt;/i&gt; (pedagogo, mestre, professor).&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Portanto, trata-se de um humilde &quot;filósofo-professor-2.0&quot; ou, como queiram, um &quot;professor-filósofo-2.0&quot;&amp;nbsp;que, ousando sair, timidamente, da sua &quot;zona de conforto&quot;, cingida há anos às acomodações em contexto&amp;nbsp;da sala de aula real, de braços com currículos e programas (áreas: Filosofia, Formação Pessoal e Social, Direito , Educação para a Cidadania, História e Filosofia da Educação) sujeito às&amp;nbsp;burocracias e demais condicionalismos laborais&amp;nbsp;e contratuais que só&amp;nbsp;o profissional da educação tem e deve, em meu entender,&amp;nbsp;&quot;engolir&amp;nbsp;a seco&quot;, resolve, assim, só agora, fazer&amp;nbsp;jus&amp;nbsp;do seu direito&amp;nbsp;de pensamento e liberdade de expressão, partilhando, através deste canal de comunicação, algumas ideias, digamos umas &quot;boas ideias&quot;, em prol da disseminação do conhecimento sobre &quot;coisas&quot; da terra que nos viu nascer e outras mais... &amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;O que pretendemos, com esta série de&amp;nbsp;publicações nesse blog,&amp;nbsp;é simplesmente administrar&amp;nbsp;a nossa própria formação contínua enquanto docentes e investigadores,&amp;nbsp;usando as ferramentas AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem). Pretendemos, neste sentido,&amp;nbsp;publicar&amp;nbsp;ensaios, artigos e mais outros trabalhos, produzidos a partir das nossas vivências, sentidos, paixões,&amp;nbsp;pensamentos, reflexões e elucubrações, sempre com intuito de fazer ciência sem se romper com o senso comum.&amp;nbsp;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;Por estas e&amp;nbsp;outras&amp;nbsp;razões,&amp;nbsp;optamos&amp;nbsp;pela publicação dos nossos textos na &quot;blogosfera&quot; não como forma de atrair atenção&amp;nbsp;para nós, mas como forma de &quot;dar&quot; um &amp;nbsp;&quot;GRITO DE LIBERDADE&quot; e&amp;nbsp; &quot;PEDIR&amp;nbsp;SOCORRO&quot;&amp;nbsp;àqueles que nos podem AJUDAR! &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;O caminho será longo e demorado. Mas,&amp;nbsp;mesmo assim CONTAMOS CONVOSCO. &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;NÃO&amp;nbsp; SE ABORREÇAM, &lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;LEIAM CADA ARTIGO&amp;nbsp;ATÉ AO FIM,&amp;nbsp;REAJAM e COLABOREM!&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b&gt;O Bloger, &amp;nbsp;&lt;br&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class=&quot;moze-justify&quot;&gt;&lt;b&gt;Álvaro Zacarias Santos Monteiro. &lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;

&lt;font size=&quot;3&quot;&gt;&lt;/font&gt;&lt;br&gt;</description>
            </item>
            </channel>
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